Mostrando postagens com marcador Pedro Dolabela Chagas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Dolabela Chagas. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de setembro de 2010

SINGULARIDADE ESTÉTICA, SINGULARIDADE ÉTICA





Pedro Dolabela Chagas
UESB
dolabelachagas@gmail.com


Estas páginas são uma reação livre ao tema do evento deste ano. Elas trazem uma leitura pessoal (não exatamente concordante) das definições que a tradição estética (de Kant, Schiller, Hegel...) ofereceu para os termos “obra de arte” e “experiência estética”, que aparecem, aqui, sob um viés mais pronunciadamente sociológico. Por aí se imiscuem alguns elementos que o leitor saberá terem se originado na obra de Mikhail Bakhtin. Não é que eu tenha empreendido uma análise do seu trabalho: deixei-me apenas inspirar por algumas de suas contribuições para colocar numa perspectiva ligeiramente desviante a maneira pela qual a arte é trabalhada pela tradição estética. O resultado é um híbrido, que coloca a maneira pela qual acredito que Bakhtin possa ser apropriado pela filosofia da arte.

[1] A “estética” como “atividade”
O ponto de partida para pensarmos o estético como “atividade” (como sugere o título do nosso encontro) está em que todo fato estético é necessariamente inscrito socialmente. O estético nunca se resume à esfera da “arte”: na condição de “atividade”, ele se integra à autoprodução social. Por um lado, o estético está disseminado em várias formas de trabalho e produção: ele está presente na organização do espaço (público e privado), na confecção de utensílios, na gastronomia, na apresentação do corpo... A sua onipresença é tal que a função propriamente estética freqüentemente não se dissocia das funções práticas dos diferentes objetos, ao contrário do que acredita a tradição estética: a singularidade da “atividade estética” não se situa apenas em oposição ao fazer pragmático, mas também em consórcio com ele. No máximo, pode-se dizer que o estético se distingue do pragmático ao situar-se como um de seus componentes, sem colaborar necessariamente para a consecução da função que determina a confecção do objeto – ainda que mesmo esta afirmação esteja cada vez mais sob disputa. Seja como for, podemos estabelecer que o estético se distingue como tal em meio a outras formas de experiência com as quais ele pode ocorrer em conjunto. Ele é, portanto, inscrito num contexto: ele é relacional. Tal inscrição social/contextual se aplica mesmo ao objeto cuja função é prioritariamente estética – aquele que convencionamos denominar de “artístico”. Aí residia a discordância de Bakhtin com o Formalismo Russo: o caráter social (dialógico) do fenômeno literário, da linguagem, da forma, que pressupõem usos, apropriações e expectativas que são externas ao objeto ele-mesmo, revolvendo, no objeto, temas que são também externos a ele. Tratar o objeto artístico como um fato autotélico, tal teria sido o equívoco do Formalismo.

[2] A estética é dialógica
Mas é claro que isso não nega a existência de objetos cuja função estética tenha se autonomizado a ponto de se tornar dominante. Tal seria o ponto de vista formalista: a função estética seria a função dominante da literatura. Sabemos o quanto e como Bakhtin se distanciou desta perspectiva: o estético não existe em completo isolamento; em seu teor relacional, ele adquire concretude formal e consistência fenomênica através do jogo que ele intencionalmente estabelece com o público – um público que Bakhtin descreve histórica, cultural e sociologicamente, e não psicologicamente. É preciso frisar que esta inserção social do estético, feita a contrapelo do Formalismo, envolveu o reconhecimento de um mérito que o marxismo contemporâneo a Bakhtin não havia alcançado: ao passo que o marxismo tomava a literatura como documento da realidade social, o Formalismo queria discernir a sua especificidade como tipo especial de produção. Dessa maneira, o Formalismo havia estabelecido como princípio algo que Bakhtin iria manter: é como literatura que a literatura dialoga com o seu exterior, mantendo a sua especificidade ao longo deste diálogo. A vocação sociológica de Bakhtin não conflita com a análise imanente do objeto. Mesmo a sua preferência circunstancial pelo termo “ideologia” não deve nos desviar deste ponto: Bakhtin o utiliza para construir uma análise que, hoje, chamaríamos de “culturalista” (em que pese o excesso de generalização do termo), mas na qual a literatura se mantém literatura, sem se dissolver na exterioridade da “cultura”. Na URSS de finais dos anos 20, a “ideologia” era apenas o conceito mais apto, pelo menos aparentemente, a fazer a literatura remeter para fora dela mesma, recuperando a perda do Formalismo. Imersa na circunstância singular da enunciação, a própria ontologia do objeto artístico passa a ser determinada pelo seu dialogismo: o objeto não seria “externamente”, mas sim “interna” ou “essencialmente” dialógico – é, já na sua composição, “essencialmente social”. Ele não teria, desse modo, uma imanência “pura” ou “plena”, um “em-si” absoluto, pois estaria perpassado por um diálogo que o define e determina enquanto objeto – enquanto forma. Esta exterioridade imanente do objeto determinaria, portanto, as suas disposições materiais permanentes: a sua forma, que o define enquanto objeto acabado e disponível à apreciação. Além disso, a sua exterioridade imanente determinaria que o objeto é aquilo que ele acontece de ser no momento singular do estabelecimento da relação. O dialogismo prevê, sim, que o objeto antecipa a sua própria recepção por saber antecipar as reações do público para o qual ele é produzido, mas isso conta apenas parte da estória: o dialogismo não se encerra no horizonte da produção do objeto, continuando a se efetivar na sua história subseqüente. É nela que um objeto artístico adquire a possibilidade de se transformar continuamente, ao longo da história de leituras que ele vier a receber, e que o tornam potencialmente infinito. Um corolário é que a relação de um indivíduo com um objeto pode ser perene ou momentânea: ela tanto pode se esfumaçar tão-logo o objeto é percebido, quanto acompanhar uma subjetividade ao longo do tempo – ao longo de uma vida inteira, talvez. Se o dialogismo faz permanentemente do objeto um objeto novo, se ele determina a eterna juventude do objeto estético, é porque ele preserva ativo o “lance de dados” que permite a sua incorporação a infinitas estórias de vida em potencial, em qualquer momento do tempo – basta que um diálogo produtivo aconteça.



[3] Singularidade
Por mais que o seu sentido e a sua função sejam socialmente vincados, a experiência da arte é, nalguma medida, sempre individual. Aqui, estamos a falar da arte que se convencionou chamar de “moderna”, em sua ampla cobertura histórica a partir do Renascimento. Apenas a arte ritualisticamente orientada tem um sentido consensual externamente compartilhado pelas comunidades que as produzem, caso em que se tem “participantes”, e não “espectadores” – o que contrasta com a divisão sujeito-objeto, com a posição sempre relativamente individualizada que o indivíduo assume na experiência do objeto que chamamos de “artístico”. Por mais que o dialogismo permeie a experiência desse tipo de objeto – por mais que a sociedade esteja sempre a perpassá-la – a sua concreção ocorre, em última análise, numa subjetividade que, no momento mesmo da experiência, se manifesta (ou é levada a se manifestar) de forma singular. Esta singularidade assume, pois, um contorno paradoxal: no limite, ela é radicalmente individual; ao mesmo tempo, nenhuma individualidade subsiste no vácuo social. A experiência da arte abriga, por isso, a possibilidade de produzir um momento de remissão, pela subjetividade, à realidade circundante. Nesse caso, ainda que tal remissão remeta a uma realidade coletivamente compartilhada, ela será rigorosamente singular – pois não há dois indivíduos que produzam remissões idênticas à realidade a partir de um estímulo estético comum. A singularidade do objeto artístico não é menor, portanto, que a singularidade da experiência que ele provoca – e que ele continuará provocando ao longo do tempo, em sua condição de um produtor infinito de singularidades que nem ele mesmo (como tampouco o seu autor) pode prever ou antecipar.

[4] O ético como possibilidade
Segue, como conseqüência da singularidade radical da experiência, que não há garantia de que o ético e o estético andem em conjunto. Não há garantia, por assim dizer, que o ético ecloda sob o estímulo do estético ou então – noutra possibilidade – que a instrução ou aprimoramento estético leve ao aprimoramento ético do indivíduo. A estética e a ética não estabelecem entre si uma relação de necessidade – o que está longe de significar que elas não estabeleçam entre si, em momentos pontuais, relações de fato. Podemos imaginar, kantianamente, que a abertura para uma experiência não-pragmática, que nos move apenas pela sua própria força, intensidade e energia, nos proporcione um momento singular de distanciamento da pragmática mundana. E pode ser que isso favoreça um distanciamento em relação ao “bom senso”, ao “senso comum” – àquilo que se toma ordinariamente por verdade. Distanciar-se da pragmática cotidiana seria um modo de se colocar à distância de consensos, normas e leis não-enunciadas, fazendo vê-las de longe. Assim a experiência estética pode suscitar algum tipo de “diferenciação”: ela pode favorecer uma “saída” da realidade que nos recoloque, nela, numa posição diferente da anterior. Mas isso só pode ocorrer como um acontecimento imprevisto: o caráter de “surpresa” é consubstancial à experiência ético-estética, pois do contrário estar-se-ia ainda no domínio do “senso comum”. Dessa surpresa, em seu poder de diferenciação, não há como saber para onde a arte nos levará – do contrário, teríamos nela uma experiência programada, calculada, antecipada e medida... A sua dimensão ética pertence ao “lance de dados” próprio à experiência estética como tal: tudo pode acontecer, nada pode acontecer, algo acontece... O que esse algo será, porém, apenas o caso o dirá: a verdade que brota da experiência só se dá a conhecer na própria experiência, assim como na reflexão e comunicação que sobre ela fazemos. Aí reside outra potência ética da experiência da arte: na comunicação a seu respeito, a experiência adquire algum tipo de permanência. No debate, na conversa, o contorno ético de um objeto artístico pode ganhar novos aspectos, pelos quais ele começa a adquirir uma permanência social que será, nalguma medida, desvinculada da experiência estética que ele provocou e continuará a provocar: quando a dimensão ética da experiência adquire o contorno do juízo analítico, tem-se já algum tipo de separação entre o ético e o estético, mesmo que tal separação venha a reboque de uma experiência em que os dois haviam aparecido, inicialmente, em conjunto.