domingo, 19 de setembro de 2010

UMA ESTÉTICA DA MORTE PARA UMA ÉTICA DA VIDA: DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE MÁRIO QUINTANA E MIKHAIL BAKHTIN





Igor José Siquieri Savenhago

Quando escrevo as minhas coisas é tudo no passado.
Parece até que já tenha morrido...
E daí?
Ou talvez seja a poesia, onde tudo não morre...
(Hipóteses, Mário Quintana)

            O poeta brasileiro Mário Quintana (1906-1994), em sua vastíssima produção literária, dedicou páginas e mais páginas para falar de um dos temas que mais o inquietavam: a morte. Foram vários poemas dedicados a falar de como lidava com ela, de como se relacionava com sua proximidade, de como a encarava, dos medos que ela provocava e até das possibilidades da pós-morte.
            Nos poemas de Quintana, a morte ora aparece como algo distante ora como companheira de quarto. Por vezes, é personificada, comparada a uma amante prometida em casamento. Em outros momentos, parece fria, incapaz de interferir em situações em que a vida é desfrutada em sua “plenitude”. São múltiplas as formas com que a morte constitui o poeta e de que como o poeta, ou o sujeito-autor, constitui a morte em sua relação com o outro e de como constitui a sua própria relação com o outro a partir do que parece ser uma oposição (Vida/Morte), mas é vista como um complemento, uma fusão, uma mistura, em que pensar sobre vida em diferentes momentos, espaços e com interlocutores distintos, muda a forma de encarar a morte e vice-versa.
            Um dos poemas de Mário Quintana sobre morte que ficaram mais conhecidos foi “Minha Morte Nasceu...”, em que o sujeito admite que a morte o constitui desde o nascimento.  

Minha Morte nasceu quanto eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem aquele jeito antigo
De rir que, ai de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui
Grave e boa a escutar o que lhe digo

Tu que és minha doce prometida
Não sei quando serão nossas bodas
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida

E as horas lá se vão loucas ou tristes
Mas é tão bom em meio as horas todas
Pensar em ti, saber que tu existes

            No início da segunda estrofe, o sujeito chega a afirmar que não enxerga mais a morte da mesma maneira como em tempos passados. A própria percepção que tem sobre si mesmo também se altera historicamente. Isso pode ser notado quando escreve que também perdeu seu jeito de rir. Nesse contexto, é possível observar, a partir desses dois recortes, que os sujeitos, ao se depararem com a certeza da morte física, do corpo, buscam encontrar um escape, uma forma de sair para a continuidade das relações com o mundo, uma tentativa de que o diálogo, mesmo após o desaparecimento material, se mantenha.
            A principal proposta do presente estudo, diante dessas considerações iniciais, é analisar, tendo como amparo os escritos do filósofo russo Mikhail Bakhtin, como a morte, como algo que não é possível experimentar em vida, constitui o humano por meio da linguagem. E refletir, principalmente, sobre como Bakhtin e seu Círculo trouxeram problematizações para a vida sobre a existência ética e estética.
            Primeiramente, é preciso buscar delinear essas concepções, caracterizar o sujeito ético e estético para a filosofia bakhtiniana da linguagem, para que seja possível olhar para os poemas de Mário Quintana tomando como ponto de partida esse universo de conhecimento.
Para Bakhtin, o sujeito é ético na medida em que não consegue deixar de agir na sociedade em que está inserido, tanto como ser físico como dotado de linguagem. Arriscando uma explicação mais simples: mesmo que se exima de agir, ele já está agindo. Nesse caso, sua ação é justamente uma tentativa de não agir. Então, o humano age a todo tempo, mesmo não querendo. Não consegue álibi para escapar da vida em sociedade, enquanto vivente. O único instante em que obtém esse escape é a morte física, quando deixa de se constituir no jogo das relações Eu-Outro por meio da linguagem. No entanto, o “morto” continua a constituir outros viventes, seja por meio de recordações, lembranças, fotografias, circunstâncias de sua vida e de sua morte, posturas, atitudes que ocupou ou exerceu em vida, enfim de características do diálogo com o mundo que tenha se perpetuado por meio da linguagem. Do contrário, seria impossível pôr Mário Quintana e Mikhail Bakhtin para conversar neste texto.
            Imprescindível observar, a partir disso, que o homem acessa, na e pela linguagem, uma situação futura em que não mais poderá entrar no jogo do diálogo, que é a morte. E tenta compreendê-la, elaborá-la, posicioná-la como um evento “natural” da existência, mas cujos questionamentos aparecem fortemente nos textos, demonstrando que, mesmo sendo condição da qual o humano não consegue se desvencilhar, adquire sentidos diferentes e múltiplos no contexto social/ideológico. Para algumas comunidades, a morte representa “fim”. Para outras, “recomeço”. Para povos ocidentais, “tristeza”, “separação”. Para orientais, “alegria”, “reencontro”.
            O “aprisionamento” no agir, ou seja, a ausência da possibilidade de que o homem escape da obrigatoriedade de agir, coloca outra necessidade ao humano: o de que ele deve responder pelos seus atos diante da coletividade, assumir a responsabilidade por suas manifestações sociais. É que Bakhtin chama de ato responsável ou ato ético. Em cada ato, o humano deixa uma espécie de “assinatura”, uma marca de que o ato possui características de seu sujeito. Em outras palavras, o sujeito constitui o ato e o ato constitui o sujeito. Por isso, não há como escapar dessa ligação. A ação está diretamente relacionada com a ética do sujeito. Poderíamos dizer, de outra forma, que a estética molda, dá forma ao conteúdo ético.
            Se o homem é essencialmente um ser dotado de linguagem, os aspectos do mundo ético do sujeito vão aparecer na estética, que, para Bakhtin, pode ser entendida, de maneira simplificada, como a representação dos pensamentos, sentimentos, intencionalidades, projetos de fala ou escrita em um suporte material e com uma forma composicional específica. Nesse sentido, o poema se encaixa como uma atividade estética, que permite aos Leitores-Outros dialogarem com o Sujeito-Eu.
            A morte como um tema frequente na atividade estética do poeta Mário Quintana deixa uma pista de que existe uma forte inquietação sobre este tema nos sujeitos dos seus textos. Tanto que o poema, representação do conteúdo ético desses sujeitos, é usado como uma busca por eternizar a palavra como ideologia da vida do sujeito e, como consequência, o próprio sujeito enquanto autor. A esfera física do autor se esvai com a morte, mas sua atividade estética permanece. É como se a estética fosse a manutenção da ética, mesmo após a morte física. O mundo ético finda, mas o estético continuará a produzir questionamentos, interpretações, inquietações, garantindo a manutenção da vida por meio da linguagem. Dentro dessa concepção, o estético poderia ser encarado como um prolongamento da vida de seus sujeitos. Isso pode ser notado na epígrafe deste estudo, em que o sujeito vê a poesia como um “lugar” em que tudo não morre. Para o sujeito, é possível, então, “vencer” a morte escrevendo.
            Além de ultrapassar as barreiras da morte, a atividade estética tem, ainda, diante do cenário apresentado, como uma das missões inverter o que parece ser uma “lógica” do mundo ético, propondo novas maneiras de pensar, jeitos de agir não experimentados antes, quebrar modelos e propor uma revisão das tradições. Há uma necessidade, uma exigência de que a ética responsável seja extrapolada para uma estética responsável, que estimule olhares outros, que incentive uma rede de atividades estéticas. Enfim, que seja responsável e responsível ao mesmo tempo, favorecendo a troca de experiências possíveis no mundo ético.
            Em outro poema de Mário Quintana, intitulado “Inscrição para um portão de cemitério”, que pode ser lido a seguir, o sujeito propõe uma inversão nos discursos que são disseminados na sociedade contemporânea sobre a morte. Essa inversão, pensada no mundo ético, é representada, esteticamente, pelos signos da cruz e da estrela.

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz,
Mas quantos que aqui repousam
Há de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim”.
           
            Dessa forma, para Quintana – e para Bakhtin também –, a atividade estética, responsável e responsível, pode produzir uma nova ética. Uma ética que valore, no movimento dos sentidos, como oportunidade de novas proposições, o que é pensado como estanque. Por meio da linguagem, presente na atividade estética, é possível transformar as relações humanas, provocar novos olhares no mundo ético e, num jogo dialógico, novos atos estéticos, como no poema acima. Uma mudança estética nas representações de vida e morte – troca da cruz pela estrela – iria suscitar, talvez, na visão do sujeito-autor, uma outra maneira de o ser humano lidar com a morte. Mas o próprio poema já pode ser encarado como o resultado de que, em alguns sujeitos, esta outra maneira já existe e que é possível compartilhá-la pela atividade estética. Diante disso, uma nova estética da morte altera a relação com a vida. E uma nova estética da vida altera a relação com a morte. Morte e vida, portanto, não se opõem, mas se constituem, se complementam, numa concepção dialógica.
            Segundo Bakhtin (1997c, p.46),

é este entrecruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel, capaz de evoluir. O signo, se subtraído às tensões da luta social, se posto à margem da luta de classes, irá, infalivelmente, debilitar-se, degenerará em alegoria, tornar-se-á objeto de estudo dos filólogos e não será mais um instrumento racional vivo pra a sociedade. A memória da história da humanidade está cheia destes signos ideológicos defuntos, incapazes de constituir uma arena para o confronto dos valores sociais vivos. Somente na medida em que o filólogo e o historiador conservam a sua memória é que subsistem ainda neles alguns lampejos de vida. Mas aquilo mesmo que torna o signo ideológico vivo e dinâmico faz dele um instrumento de refração e deformação do ser.

            Com isso, pode-se extrair que, para os sujeitos dos poemas de Mário Quintana e para o próprio sujeito-autor Mário Quintana, a morte é um signo vivo, que, em vários momentos, o atravessa no mundo ético e que, por provocar inquietações, emerge para a atividade estética da poesia.
            Ao nos depararmos com as considerações feitas até o momento, podemos promover diálogos com os muitos sentidos que atribuímos a Morte-Vida no jogo das relações Eu-Outro. Para Bakhtin, como observado no recorte acima, um signo ideológico pode ser considerado defunto se for incapaz de se constituir como uma arena de valores sociais vivos. E por isso, é possível, no nosso caso específico, dizer que a morte pode ser tomada como vida, enquanto uma arena que põe valores humanos em debate, como no presente artigo.
            Com isso, é permitido pensar em muitas outras mortes-vidas, em diversas esferas da existência humana, como as dos próprios modelos científicos, das práticas de legitimação de olhares e saberes na academia. Fazer emergir modelos que considerem a constituição do pesquisador dentro de uma relação dialógica, em que a atividade estética é resultado da interação com a ética, é urgente para que se compreenda que a ciência também é interativa e, por isso, ideológica. É nesse jogo dialógico de morrer-viver, silenciar-emergir, manter-romper, apagar-retomar que a ciência, enquanto atividade estética que almeja ser responsável, pode se aproximar, cada vez mais, das aspirações éticas da humanidade.   

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997a.

________________. Hacia uma filosofia del acto ético. Barcelona: Anthropos, 1997b.

________________. Marxismo e filosofia da linguagem. 8.ed. São Paulo: Hucitec, 1997c.

FARACO, Carlos Alberto. Autor e autoria. In BRAIT, Beth. Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005 (p. 37-60).

QUINTANA, Mário. Hipóteses. Disponível em www.quintanares.blogspot.com. Acessado em 19/09/2010.

QUINTANA, Mário. Minha morte nasceu... Disponível em www.quintanares. blogspot.com. Acessado em 19/09/2010.

QUINTANA, Mário. Inscrição para um portão de cemitério. Disponível em www.quintanares.blogspot.com. Acessado em 19/09/2010.

SOBRAL, Adail. Ético e Estético: na vida, na arte e na pesquisa em Ciências Humanas. In. BRAIT, Beth. Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005 (pgs. 103-121).













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