Marília Varella Bezerra de Faria
A poesia despersonaliza os dias de sua linguagem, já a prosa, desarticula-os frequente e propositadamente.
Mikhail Bakhtin
Este artigo propõe uma breve reflexão sobre o conceito de Mikhail Bakhtin acerca da prosa e da poesia, na empreitada de examinar mais de perto, como o autor trabalha a natureza dialógica e monológica dessas atividades estéticas. Incluo como contraponto, algumas considerações de Tezza (2006) sobre essa visão, digamos, arbitrária de Bakhtin.
No capítulo O discurso na poesia e o discurso no romance, do texto O discurso no romance, Bakhtin traça um encontro (ou desencontro) entre o discurso poético e o discurso prosaico, fundamentando sua discussão na orientação dialógica do discurso.
O prosador sob a ótica bakhtiniana não afasta de seus discursos as intenções de outrem, não destrói os falares do outro, mas, expressa em sua obra diferentes graus de envolvimento com o discurso alheio. Por vezes, exprime suas intenções semânticas de forma direta (a exemplo do poeta); em outros casos, as intenções do outro são refratadas, ou seja, o prosador não as acata totalmente em seu discurso, imprimindo neste seu tom pessoal em maior ou menor grau (a sátira, a paródia, a ironia, etc.). Em outras situações, ainda, o prosador torna-se quase alheio ao seu discurso, onde não expressa suas intenções, reproduzindo quase que integralmente o discurso do outro.
No caso do discurso poético, Bakhtin afirma que este se constitui em um discurso que se basta, onde inexiste a voz do outro -- “O estilo poético é convencionalmente privado de qualquer interação com o discurso alheio, de qualquer olhar para o discurso alheio” (BAKHTIN, 2002, p. 93).
Além disso, afirma que a linguagem poética torna-se refratária à influência, inclusive dos dialetos sociais não literários. Em outras palavras, o poeta é capaz de expurgar as palavras de outras intenções que não sejam as suas, fazendo com que estas exprimam apenas o seu desejo mais direto e, dessa forma, tomando para si o domínio absoluto sobre sua linguagem.
O poeta desembaraça as palavras das intenções de outrem, utiliza somente certas palavras e formas e emprega-as de tal modo que elas perdem sua ligação com determinados estratos intencionais de dados contextos da linguagem. Por trás das palavras da obra poética não se devem perceber as imagens típicas e objetivas dos gêneros (exceto o gênero poético), as profissões, as tendências (exceto a tendência do próprio poeta), as concepções de mundo (exceto as concepções do próprio poeta), as imagens típicas ou individuais dos falantes, suas maneiras de falar, entonações típicas, etc. Tudo aquilo que penetra na obra deve se afogar no Letes, esquecer a sua vida anterior nos contextos de outrem: a língua só pode lembrar de sua vida nos contextos poéticos (neste caso, são possíveis também as reminiscências concretas) (BAKHTIN, 2002, p. 103, grifos do autor).
Para Bakhtin, a linguagem da obra acabada é a língua do poeta nas suas formas internas, embora reconheça que este passe por “tormentas verbais” durante o seu processo de criação. O discurso do poeta é único e incontestável, construído a partir do seu mundo contraditório e conflitante, mas esses elementos permanecem no objeto e não passam para a linguagem. O poeta é, assim, responsável pela linguagem de sua obra como sendo “sua própria linguagem, a completa solidariedade com cada elemento, tom e nuança” (BAKHTIN, 2002, p. 94). Assim, a linguagem poética possui uma estabilidade monolíngue, determinada pela individualidade intencional e direta do estilo poético.
Nos gêneros poéticos, a consciência literária (no sentido da unidade de todas as intenções semânticas e expressivas do autor) realiza-se inteiramente na sua própria língua; ela é inteiramente imanente, exprimindo-se nela direta e espontaneamente sem restrições nem distâncias. A língua do poeta é a sua própria linguagem, ele está nela e é dela inseparável. Ele utiliza cada forma, cada palavra, cada expressão no seu sentido direto (por assim dizer, “sem aspas”), isto é, exatamente como a expressão pura e imediata de seu pensar (BAKHTIN, 2002, p. 93).
Bakhtin estaria, então, definindo a prosa como dialógica, democrática, e a poesia como uma voz monológica, autoritária.
Mas, em meio a tudo isso, é o próprio Bakhtin quem fala sobre uma estreita e íntima relação entre a poesia e a língua, que é o seu material estético:
É só na poesia que a língua revela todas as suas possibilidades, pois ali as exigências que lhe são feitas são as maiores: todos os seus aspectos são intensificados ao extremo, alcançam seus limites; é como se a poesia espremesse todos os sucos da língua que aqui se supera a si mesma (BAKHTIN, 2002, p. 48).
Estaria o filósofo, assim, a atenuar um provável preconceito em relação ao discurso poético?
Tezza (2006) argumenta que devemos ser cautelosos na leitura do pensamento bakhtiniano sobre esses dois estilos. Para o autor, é verdade que de acordo com Bakhtin, o poeta não tem limites, não mente e chama para si a inteira responsabilidade pelo que diz, ele é proprietário absoluto da linguagem e pode fazer o que quiser com ela. Mas é também verdade que o prosador,
ao colocar a linguagem de outrem no centro de sua voz, fica de certo modo escravo dela; o seu grau de liberdade vai até o limite de não descaracterizar a voz alheia a ponto de deixá-la irreconhecível como tal (isto é, com direitos sobre a sua própria palavra) (TEZZA, 2006, p. 204).
Em suas considerações, Tezza (2006) trata dos dois extremos da estilística que seriam o “extremo poético” e o “extremo prosaico”. A esses extremos corresponderiam diferentes movimentos linguísticos ao longo dos tempos: os tempos “linguisticamente centralizadores”, que seriam os tempos estilisticamente poéticos e tempos “linguisticamente descentralizadores”, referindo-se aos tempos prosaicos. Com isso, o autor traça um paralelo entre esse aspecto sócio-histórico da linguagem e os conceitos que Bakhtin denomina de “forças centrífugas” e “forças centrípetas”, nos quais as primeiras funcionam como descentralizadoras e as segundas como forças que buscam uma unidade central da linguagem.
É, ainda, Tezza quem atualiza a sua reflexão para a contemporaneidade quando afirma que vivemos em um “tempo prosaico”, não como um tempo de preferência pela prosa, mas um tempo multicultural, no qual a autoridade poética terá cada vez mais dificuldade em encontrar ressonância. Para ele, isso não significa absolutamente a morte da poesia, ao contrário, “esse impulso poético prossegue vivíssimo em segundo plano, ou mesmo invadindo (ou recuperando) gêneros que havia perdido ao longo da história” (TEZZA, 2006, p. 207). Existirá, acima de tudo e em função de tudo, o papel da poesia enquanto olhar sobre o mundo:
O universo semântico-ideológico, porém, encontrará na sua expressão a resistência da cultura coletiva da qual faz parte o poeta e de onde extrai a convenção de sua arte. Assim, há sempre um toque transcendente na voz poética, a busca do “tom maior” (grifo do autor), coletivo, que dá à poesia a autoridade de sua própria presença, a dignidade que a justifica. Se, tecnicamente, o estilo poético “não conhece limites”, (grifo do autor) como diz Bakhtin, ideologicamente o poeta será “um homem de seu tempo” (grifo do autor) – o limite de autoridade poética é o eco de sua voz (TEZZA, 2006, p. 206).
Ora, se a voz do poeta se constrói a partir do mundo que o cerca, também sua obra se constrói a partir das representações que faz desse mundo. O poeta vive imerso no plurilinguismo, em um mundo dialógico por natureza; em consequência é, ele próprio, um sujeito plurilíngue.
Todas essas considerações, no entanto, não invalidam as características sociais e históricas tanto da prosa quanto da poesia, que são, indiscutivelmente, discursos formados por diferentes vozes que retratam as diferentes épocas de cada sociedade, são enunciados escritos ou orais, relacionados a um determinado campo da atividade humana, o da linguagem literária.
E como não pode haver agir humano independentemente da interação, o poeta e o prosador constroem os seus discursos por meio das relações que estabelecem nas suas diferentes esferas de atividade, refletindo uma determinada época histórica, social e cultural; constroem seus discursos, lhe atribuem sentido e valor.
Ficam, assim, postas estas breves e inconclusas reflexões...
Referências
BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 5. ed. São Paulo: Annablume e Hucitec, 2002.
TEZZA, C. Poesia. In: BRAIT, B. (org.), Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2006.
Marília Varella Bezerra de Faria
Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Integrante do Grupo de Pesquisa Práticas Discursivas na Contemporaneidade do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem – PPgEL/UFRN.
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