domingo, 19 de setembro de 2010

Relendo Bakhtin[1]: Os classificadores da Língua de Sinais concebem o estético e valorizam o ético no enunciado concreto.


           

Anderson Simão Duarte[2]: andersonlibras@hotmail.com
MeEL/UFMT[3]
            Ao estudarmos e pesquisarmos a respeito da estrutura linguística da Língua Brasileira de Sinais, observamos que as considerações bakhtinianas sobre a linguagem fazem-se mais reais que o próprio ar em contato com um ser vivo, pois ela possibilita explicar e saciar o desejo que o indivíduo tem de compreender essa língua tão distinta da língua oral, já que estamos nos referindo a uma língua exclusivamente visual e também espacial.
Sua complexidade gramatical e linguística é vertiginosamente e horizontalmente tão ampla quanto algumas línguas orais. A estrutura semiótica é a marca central da língua de sinais, a imagem, isto é, o enunciado não verbal é a fundamentação da língua. A língua de sinais não é semeada por segredos nem por codificações aleatórias, ela preenche a historicidade da língua, ela nos orienta ao entendimento do outro com o seu par, através do dialogismo.  O arcabouço da língua de sinais simula os processos e recursos manuais e não manuais construindo sentidos, da morfologia à fonologia[4], da sintaxe à pragmática, enfim, a língua por vezes desliza e por vezes caminha nas regras da gramática normativa, ganhando vida e sentido nos diferentes enunciados. Estamos no terreno do estético...
Cada enunciado, por sua vez, é ímpar, é peculiar aos fatos históricos, aos recursos não verbais, à intimidade com o falante, à familiaridade com a língua e à co-relação com o outro, elementos, que nos remetem diretamente às idéias bakhtinianas.
Pensando este estético em relação à LIBRAS, é muito mais que um conjunto de gestos e sinais manuais, este se dá acontece na ação do diálogo, no acontecimento dos fatos, no movimento da vida, portanto, este estético não é retrógado ou pré-construído, ele simplesmente serve-se do agora, pois excede as barreiras linguísticas da língua de sinais.
            A interação acontece, segundo Bakhtin, no nosso dia a dia, no cotidiano. Percebe-se que estamos nos referindo aos enunciados concretos que constituem mais que sinais ou frases, representam o verdadeiro intercâmbio com o outro num dado momento, situação e contexto. Mediante tal conceito, percebemos que o indivíduo é a marca central no processo de comunicação, o eu e o você, não são simplesmente pronomes, ou gestos/sinais/apontamentos, mas sim centros de valores na interação, assim como os sinais por si não têm significado se não apropriados pelo eu em direção a um outro, e vice-versa.
            Uma palavra dicionarizada é formatada e engessada de forma mecânica e decorativa, como temos também os sinais, eles por si só não produzem sentidos, não norteiam significados ao outro. No entanto, quando esses estiverem inseridos e contextualizados num dado enunciado concreto, valoriza-se o sentido da informação, assim, explicitamos, segundo Bakhtin, o ético. Para compreender este processo, tal pensamento, pensemos na intenção do diálogo não verbalizado juntamente com uma pronta-resposta na qualidade não de pessoas com “deficiência auditiva”, ou “especiais” que respondem ao chamado, mas de seres humanos que, ao não terem “álibi na existência”, são “responsáveis” ou “respondíveis” pelos seus atos-enunciados.
 A língua de sinais permeia entre os enunciadores de forma singular, representando um grupo, uma região, uma tribo, até mesmo um dado momento histórico na língua de um dado país, estamos nos referindo aos empréstimos linguísticos das Línguas de Sinais[5].
            A língua é momentânea e pessoal, onde os sinais representam o indivíduo, a forma e os recursos linguísticos que o mesmo constrói, haja vista que é perceptível através dos classificadores[6] (sinais pessoais) da língua de sinais a forma e a intenção que os enunciadores valorizam em seus sinais e pensamentos. Esses classificadores não se encontram nos dicionários nem estão amarrados às normas gramaticais, pois, a língua está em constante movimento. Esse movimento assemelha-se ao vento, pois não para, nem desaparece, simplesmente o sentimos e se transforma respectivamente. A língua é um espelho de enunciados de diversos outros sinais (vozes), mas sempre em processo de construção e reconstrução, de imagens e novos significados, de respostas e contra-respostas...
            O entendimento dessa língua nada artificial se estabelece na ação e reação dos enunciados, fundamentando a compreensão ativa e responsiva do discurso visual. Creio que podemos concordar com Bakhtin na teoria de que o sentido de todo enunciado se constrói com o outro; ora, sabemos que não há emissor sem receptor assim como não há imagem sem espelho, a estruturação e a responsividade da língua de sinais estão no terreno do ético.
            Este é a própria luz do enunciado, o que justifica ao outro os pensamentos, e as incertezas, as negações e as aprovações, os questionamentos e as respostas, o eu e o outro, portanto, pergunto: É possível encaixotar a luz? Creio que não, deste modo, é impossível acorrentar um enunciado.
           
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
QUADROS, R. M & KARNOPP, L. B. Língua Brasileira de Sinais – Estudos Linguísticos. Porto Alegre, Artmed, 2004.

BAKHTIN, M. M. (1952-1953/1979) Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo, Martins Fontes, 2003.

SOBRAL, A. Ético e estético: na vida, na arte e na pesquisa em Ciências Humanas. In: BRAIT, B. (Org). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo, Contexto, 2007.
















[1] Relendo Bakhtin (REBAK) é um Grupo de Estudos coordenao pela professora doutora Simone de Jesus Padilha e que tem a participação de alunos da pós-graduação em Estudos de Linguagens do MeEL-UFMT.
[2]  Aluno do Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagens MeEL/UFMT, orientado pelas professoras doutoras Simone de Jesus Padilha e Cláudia Graziano Paes de Barros.

[3] Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagens/UFMT.

[4] A fonologia na Língua de Sinais determina quais são as unidades mínimas que formam os sinais e estabelece padrões possíveis de combinações entre unidades e as variações possíveis no ambiente fonológico. Portanto, objetiva identificar a estrutura e a organização dos constituintes fonológicos, propondo modelos descritivos e explanatórios. Quadros, 2004.
[5]  A Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS é constituída de empréstimos da Língua Francesa de Sinais compreendendo 40%, da Língua Americana de Sinais corresponde a 20% e sua complementação se dá no processo histórico do Brasil. A LIBRAS não é fundada das línguas orais, são línguas independentes.
[6]  Os classificadores são recursos manuais e não manuais utilizados para expressar lugares, objetos, pessoas e ações entre os comunicantes, tais como, entrar, sair de, em baixo de, em frente de, etc. São sinais que conferem flexibilidade às regras gramaticais da língua de sinais, os classificadores são constituídos como recursos visuais de complementação ao entendimento dos enunciados concretos.

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