Vívian Bearzotti Pires
As pesquisas com as quais me envolvo se dão sempre no espaço do meu trabalho cotidiano, eu estudo para atuar como professora, como formadora, mais especificamente como professora de um laboratório integrado de leitura e produção de textos no ensino superior, atualmente em dois cursos de Psicologia. Por isso, vou aqui mais justificar do que relatar alguns momentos de um processo de produção que venho desenvolvendo com meus alunos, provocado por mim, no sentido de que não é uma exigência do discurso acadêmico em Psicologia. Apenas a título de explicação, considero uma exigência do curso o trabalho com resenhas, ensaios, relatórios de experimento, de estágio, de aplicação de testes, de pesquisa etc.
Este trabalho que desenvolvo, diferentemente, ainda que articulado com os outras disciplinas, é uma exigência que tenho feito a mim como professora-pesquisadora, no sentido de conhecer o meu “outro” (AMORIM, 2001) que se institui na relação pedagógica, ouvir suas vozes, saber quem são, de onde vem, que valores carregam, o que acredito ser uma forma de atuação no trabalho pedagógico que responde a uma perspectiva dialógica da linguagem e da constituição dos sujeitos (BAKHTIN, 1993; 1997). Simultaneamente, esse trabalho tem o intuito de provocar neles uma reflexão sobre si, uma valorização de sua história individual como sujeitos humanos - no sentido que Benjamin (1985) propõe, podemos dizer que todo acontecimento, toda experiência de vida do sujeito é importante para a história da humanidade, merece registro. Trata-se da produção de escritas autobiográficas, que podem ocorrer na forma de diários de formação, que servirão como material para a elaboração de memoriais de formação, ou como uma reflexão acerca de antes/depois da entrada no curso de Psicologia.
Assim, há duas atividades distintas, cada uma relativa a um dos cursos. Numa delas, em que o laboratório se insere nos dois primeiros períodos do curso, os alunos devem produzir, ao longo do primeiro semestre de graduação, um diário de formação inicial, no qual relatam e refletem, calcados nas teorias que aprendem, sobre como e porque vieram para o curso de Psicologia e que alterações de ser e conhecer tem vivido. Na outra, em que o laboratório ocorre nos segundo e terceiro períodos, eles se apresentam a mim no começo do segundo período por meio de um relato sobre como e porque escolheram esse curso e quais as alterações que viveram.
A proposta de desenvolver esses registros autobiográficos se inscreve no âmbito de muitas das metodologias qualitativas nas Ciências Humanas que lançam mão de histórias de vida como recurso metodológico qualitativo, dentre eles, podemos citar o uso de diários de vários tipos (HESS, 2006), o uso de histórias de vida de sujeitos, recolhidas, por exemplo, em entrevistas; a elaboração de memoriais de formação (PINEAU, 2006; JOSSO, 2006).
Ouvir o homem, aquilo que ele tem a dizer sobre si, sobre sua trajetória é uma forma de termos acesso a ele, nas diversas áreas de estudo que o tomam como objeto de suas investigações, respeitando sua qualidade intrínseca de “objeto falante” (AMORIM, 2001); ainda dialogando com Benjamin (1985), podemos dizer que dar ao sujeito a palavra sobre si é resgatar seu direito a interpretar e fazer a própria história.
Dialogando agora com Bakhtin (1993, 1997, 2004), tomando em consideração aspectos de sua concepção dialógica da linguagem, da linguagem como constituída e constitutiva das subjetividades em interação no mundo cultural, nos grupos sociais dos quais elas participam, podemos dizer que a história de si narrada pelo sujeito pressupõe um outro a quem se dirige, a quem responde.
Se concordamos com Bakhtin que todo enunciado proferido dirige-se a um outro, podemos dizer que essa alteridade é constitutiva do dizer, que ela o modaliza.
Assim, a escrita autobiográfica se justifica como um processo pelo qual o sujeito aprendiz (de psicólogo) se constitui reflexivamente enquanto tal, resgata e ressignifica sua experiência pessoal de formação, e ao fazê-lo, toma em conta aqueles que estão em seu entorno como co-partícipes dessa formação, como alteridades às quais responde, que o constituem, na medida em que tem sobre ele um excedente de visão (BAKHTIN, 1997).
Pode-se dizer que nunca há uma coincidência entre autor-pessoa e autor-criador, o segundo é sempre uma construção do texto, do enunciado (BAKHTIN, 1997; FARACO,2008).
Do mesmo modo, o leitor inscrito no texto é imagem do leitor real, ainda que seja a manifestação da alteridade que constitui, que modaliza o dizer, não se confunde com nenhuma pessoa de “carne e osso”, é criação do próprio texto e inscreve-se em sua materialidade.
Portanto, no laboratório como um todo, e na produção dos diários de formação ou dos registros sobre antes/depois da entrada no curso de Psicologia em específico, operamos com uma concepção de autor como uma posição axiológica, um deslocamento produzido a partir de valores assumidos pelo autor-pessoa acerca de um certo tema da vida, que engendra no texto um autor-criador, ou se preferirmos, uma imagem de autor, como nos ensina Bakhtin (1997).
Nesse sentido, sabemos que não há sobreposição entre a pessoa que escreve e a imagem de autor que cria, nem mesmo nos registros autobiográficos. O autor-pessoa se desloca, assume uma posição de valor acerca da sua vida.
Essa posição de valor se dá por um processo de distanciamento, de acabamento – ainda que provisório – e de escolha. Diferentemente do “defunto autor” Brás Cubas, de Machado de Assis, cuja vida já se esgotara, já se concluíra, nossos alunos que escrevem sobre si ainda são seres inconclusos, e para narrar os acontecimentos de sua vida, precisam “simular” um acabamento, que só pode se dar na medida em que falam de si como se fossem um outro, ao qual observam “de fora”, numa perspectiva exotópica (BAKHTIN, 1997), assim como o autor literato que narra os acontecimentos de seu herói olhando de fora para ele.
Ao tomarem distância para olhar para sua própria vida, mais do que narrar da perspectiva imediata do acontecimento, tomam o acontecido de fora e depois, no espaço e no tempo, e neste sentido também já são outros.
O próprio processo de refletir sobre si como se fosse um outro – que, diga-se de passagem, diante da distância no espaço e no tempo, talvez assim o seja –, lançando mão de saberes adquiridos no processo de formação, mais ou menos extenso no tempo, certamente produz alterações e ressignificações de si, é uma escrita que, mais do que outras, permite ao sujeito conhecer-se e reconhecer-se, e, retomando Benjamin (1985) valoriza a sua história como trajetória relevante de um sujeito.
Há que se destacar, ainda, que antes da entrega do texto final, seja na perspectiva da produção dos diários para o memorial, seja na entrega da proposta de narrar-refletir acerca do antes/depois da entrada na Psicologia, existe o momento de troca com os colegas na roda de conversa, é um momento em que as histórias se identificam e se diferem, por vezes se alteram diante do vivido/dito pelo colega. Mais uma vez há um movimento exotópico, a alteridade que permite novas modalizações, novas configurações ao sujeito.
Do ponto de vista daquele que, como eu, apenas recebe os registros, falados e escritos, e “ouve” o que ele diz, tem sido possível tomar as marcas singulares de autoria e de modo de ser dos alunos com os quais trabalho.
Pensar a linguagem como dialógica significa também ouvir o que os alunos têm a dizer como resposta ao que propomos como trabalho, ao que pretendemos “ensinar”, bem como conhecer quem são nossos alunos, o que eles têm a nos dizer da vida deles. Obviamente me refiro aqui não ao diálogo imediato face a face, que se dá, mas às camadas mais profundas de produção sentido.
Assim, como professora-pesquisadora, posicionada num espaço multidisciplinar – educação/linguística/psicologia – tais registros têm sido um recurso de encontro com esses sujeitos/objetos de meu interesse.
Ele permite “recolher dados” acerca de diversos aspectos da vida desses sujeitos (idade, classe social, escolaridade, desejos, idealizações), bem como dos espaços sociais pelos quais transitam (formação básica, família, trabalho, religião) da perspectiva deles.
Para além da autoria materializada em textos e discursos, é possível conhecer um pouco o perfil de nossos alunos, de forma que, ouvindo-os, possamos responder responsavelmente a eles não só buscando modos de “incutirmos” nossos valores, mas também os revendo. Afinal, ao dizerem de si no processo de formação, necessariamente dizem de nós, seus “outros”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMORIM, M. O pesquisador e seu outro – Bakhtin nas Ciências Humanas. São Paulo: Musa, 2001.
BAKTHIN, M. Questões de literatura e de estética – a teoria do romance São Paulo: HUCITEC/UNESP, 3ª ed., 1993.
Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2ª ed., 1997.
BENJAMIN, W. O Narrador. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1985, p.197-221; p.221-232.
FARACO, C.A. Autor e autoria. In: BRAIT, B. (org.) Bakhtin – conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 4ª ed., 2008, p.37-78.
HESS, R. Momento do diário e diário dos momentos. SOUZA, E.C.; ABBRAHÃO, M.H.M.B. (orgs.) Tempos, narrativas e ficcções: a invenção de si. Porto Alegre/Salvador: EDIPUCRS/EDUNEB, 2006, p. 89-101.
JOSSO, M. C. Os relatos de histórias de vida como desvelamento dos desafios existenciais de formação e do conhecimento: destinos sócio-culturais e projetos de vida programados na invenção de si. . SOUZA, E.C.; ABBRAHÃO, M.H.M.B. (orgs.) Tempos, narrativas e ficcções: a invenção de si. Porto Alegre/Salvador: EDIPUCRS/EDUNEB, 2006, p. 21-40.
PINEAU, G. As histórias de vida como artes formadoras de existência. SOUZA, E.C.; ABBRAHÃO, M.H.M.B. (orgs.) Tempos, narrativas e ficcções: a invenção de si. Porto Alegre/Salvador: EDIPUCRS/EDUNEB, 2006, p. 41-59.
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