Kássia Roberta da Silva Alencar (UFPA)
Andréia Patrícia de Oliveira Barros (UFPA)
Ivone Leal Lopes (UFPA)
Nossos passos pela universidade ecoavam nas passarelas e no caminho o que aparentava serem as mesmas árvores, as mesmas pessoas, os prédios por onde passávamos... Desenhavam nossa rotina. Em um dia que parecia ser outro qualquer mudamos o caminho, vimos um chafariz de estilo clássico aparentando ser feito de mármore, não saía água do requintado chafariz, e o mal cuidado do tempo não desfazia sua “beleza”, embora já o corroessem um pouco, estava cercado por uma matéria aquosa semelhante à gosma misturado a um limo verde bem claro.
Era um pouco difícil de acreditar que um chafariz tão esquecido pudesse ter mudado nossas vidas de forma tão marcante. A percepção do belo e o grotesco na vivência da universidade fizeram com que quiséssemos prosseguir com o exercício do olhar extra posto dentro da cidade universitária e, além disso, termos esse olhar sensível em nossas vidas. Naquele o chafariz nos chamou atenção, mas será que ele “tocou” da mesma forma as várias pessoas que passavam (ou passaram) por ali ao longo do dia? O que o Outro teria a dizer sobre o chafariz?
Já era outro dia. Às sete horas, amanhecia a universidade, as pessoas chegavam à estação e a maioria delas corria para suas salas. Dentre as pessoas nós também chegávamos e ao passar pela ponte do rio Tucunduba uma garça alvíssima desfilava toda sua delicadeza no negrume e na fedentina que o rio exalava. A garça transparecia um ar de superioridade, ali no meio da lama era a senhora do lugar, o contraste era muito chocante, porém não mais chocante que as duas pessoas que estavam debaixo da outra ponte, onde poderiam ser avistadas por nós, curvadas como se procurassem algo na lama, eram quase animais, e a garça quase humana.
“Assim pode-se instaurar o evento do tipo “eu-isso” entre duas pessoas, assim como também pode ocorrer o evento do tipo “eu-tu”, entre pessoa e animal ou pessoa e coisa trata-se de uma mudança de percepção e de atitude, quando o “eu” se abre para um tipo de contemplação em que o outro (pessoa, animal, coisa ou Deus) não aparece reduzido a mero objeto de análise ou instrumentalização, mas como pleno sujeito, com voz a ser escutada.”
[NUTO, João Vianney]
De acordo com Bakhtin o Outro não pode ser percebido como “coisa”, mas sim como diálogo que irá interferir na maneira de se autoconhecer. O dialogismo em Bakhtin refere-se muito ao discurso do outro que interfere na percepção do próprio discurso em outros indivíduos.
Essa maneira de perceber a realidade além da própria aparência, ou seja, a coisa por si, é o que Bakhtin chama de olhar extra posto, isto é, um olhar que extrapola a realidade.
Sonia Carbonell também afirma que podemos compreender a estética na dimensão do cotidiano relacionando a estética não somente à arte, mas também á experiência vivida.
E agora, o que significam nossos passos pela universidade? Talvez voltem a ser os mesmos após cada experiência vivida por nós. As sensações que a universidade-principalmente- tem nos causado, talvez seja o que mais sabemos sobre a concepção de estética em Bakhtin.
“Renda-se como eu me rendi
Mergulhe no que você não conhece
Como eu mergulhei
Não se preocupe em entender
“Viver ultrapassa qualquer entendimento.”
Clarice Lispector.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· NUTO, João Vianney Cavalcanti. A influência de Martin Buber no conceito bakhtiniano de dialogismo.p-5.
· ALVARES, Sonia Carbonell. Educação estética para jovens e adultos: a beleza no ensinar e no aprender. São Paulo: Cortez, 2010.
· Poema retirado do site: www.pensador.info
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