Fábio Cardoso dos Santos*
“Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”. Leonardo da Vinci
Para procedermos à leitura desse gênero discursivo em que a linguagem verbal e a visual se imbricam, vejamos como se constitui etimologicamente a palavra charge. Segundo o dicionário Houaiss (2001), ela advém do latim carricare, passa para o francês como carga, datada do século XII, e por extensão de sentido como: “o que exagera o caráter de alguém ou de algo para torná-lo ridículo, representação exagerada e burlesca, caricatura, regres. de charger – carregar”. Ainda no Houaiss, define-se como um substantivo feminino: “desenho humorístico, com ou sem legenda ou balão, geralmente veiculado pela imprensa e tendo por tema algum acontecimento atual, que comporta crítica e focaliza, por meio de caricatura, uma ou mais personagens envolvidas”. Trata-se de elementos dos quais as charges são constituídas.
Segundo Saliba (2002), atribuímos à charge um sentido diferente daquele comumente assumido em sua língua de origem, o francês nos primórdios. Temos, então, a ideia de carga, contida nas diversas acepções da palavra. Portanto, convém resgatar a definição de Saliba (2002, p. 29) sobre a representação humorística por meio da charge, pela afinidade com nossa opinião a respeito desse recurso, tão presente nos dias de hoje, com uma mistura de arte, história e humor. Saliba nos diz:
Fugindo dos verbetes dos dicionários, podemos caracterizar a representação humorística, portanto, como aquele esforço inaudito de desmascarar o real, de captar o indizível, de surpreender o engano ilusório dos gestos estáveis e de recolher, enfim, as rebarbas das temporalidades que a história, no seu constructo racional, foi deixando para trás. Ela é também o instante rápido da anedota, aquele ouro do instante: ela só consegue revelar o impensado, o indizível ao surpreendê-lo naquele seu momento supremo de estranhamento, que se realiza num átimo, porque, depois, a história se movimenta novamente, o sentido do novo se esvai, o riso se esgarça e se retrai e se ele prossegue, começa a repetir-se, a perceber-se caduco e inútil como espargindo cinzas sobre a pátina já cinzenta das estátuas do passado. Por tudo isso, mais do que percepção e sentimento da ruptura e da contrariedade, a representação humorística é uma epifania da emoção. Ela se dilui na vida cotidiana e só de vez em quando brilha e ilumina, como num intervalo de riso e de alegria na rotina dos ritmos repetitivos e diários (SALIBA, 2002, p. 29).
Na charge, o texto não está ligado intrinsecamente à noção de palavra, mas, mais do que nunca, é uma fusão que constitui o verbal e o visual. Destacamos, na charge, a presença do humor, elemento comum que perpassa por todas as formas de linguagem; dessa forma, não poderíamos deixar de lado a caricatura, tão presente na charge.
A caricatura dispensa detalhes, como a legenda, por exemplo, e nela a imagem do caricaturado é castigada em um ato de puro gozo do artista. Encontramos em Freud (1977) uma explicação psicanalítica para esse fato: o humor permite que se liberem as fontes de prazer reprimidas, a partir da satisfação dessa liberdade e do prazer de enganar ou driblar o censor.
O ato de fazer uma caricatura utiliza uma forma tão resumida e suficiente de desenhar, que dispensa a palavra, a repetição, a inversão e a interferência, por exemplo, recursos sempre presentes em outras variantes de fazer humor, e provocar o riso.
Segundo Bergson, na caricatura, ocorre o agravamento de algum traço do caricaturado, levando-o à deformidade e, a partir daí, conduzindo-o ao ridículo. Em suas palavras:
É incontestável que certas deformidades têm em relação às outras o triste privilégio de, em certos casos, poder provocar o riso. É ocioso entrar em pormenores. Pedimos apenas ao leitor que passe em revista as deformidades diversas e que depois as divida em dois grupos: de um lado, as que a natureza orientou para o risível e, de outro, as que fogem absolutamente a ele. Acreditamos que acabará por depreender a seguinte lei: pode tornar-se cômica toda deformidade que uma pessoa bem-feita consiga imitar (BERGSON, 2001, p. 17).
No entanto, a caricatura não se deve limitar ao exagero dos traços, já que, para ser cômico, não é necessário chegar ao ridículo. Cabe ao caricaturista apenas prolongar ou reduzir alguns dos traços, estreitar ou alargar outros, de modo a levar-nos a rir de um rosto caricaturado.
Na apresentação do livro Caricaturistas brasileiros – 1836-1999, Pedro Corrêa do Lago (1999, p. 7) afirma que os personagens descritos em desenhos de humor “costumam estar mais próximos da verdade do que a história oficial”, pois o artista não inventa e não cria a partir do nada, mas, em sua opinião, “uma síntese da indignação diante de uma dada situação e o anseio nacional da corrupção” é que são narrados nesses desenhos, motivo pelo qual essa arte se expressa de forma mais degradante do que no realismo fotográfico.
Bergson diz-nos que “a lógica da razão não corresponde à lógica da imaginação, ou, antes, ambas se opõem”. Nesse caso, não se trata de um sonho ou mera imaginação individual, mas, sim, do sonho de uma sociedade inteira. Contudo, essa sociedade reconhece o cômico no disfarce, embora também se mascare, e a máscara, quando cai, provoca a comicidade de um indivíduo em sua particularidade ou na coletividade.
Vejamos as considerações a respeito do humor e do riso na charge, além de algumas definições necessárias à compreensão do sentido que queremos dar a determinados termos aqui usados. O humor contido em charges e em outras formas de textos, sejam esses verbais, verbo-visuais ou visuais, tem sido atualmente alvo de estudo na área da Linguística, sendo caracterizado como uma forma de o humorista criticar os costumes da sociedade, pois revela o contexto do mundo, apresentado por meio da charge.
O humor busca o riso fácil, a zombaria e o gracejo sob variadas formas, que vão da pura e simples crítica à aparência física de um indivíduo até aos costumes de uma sociedade inteira. A política e os costumes de dada sociedade são, destarte, os motivos mais frequentes dessas críticas por parte daqueles que, assim, buscam uma forma de provocar e aprimorar o riso, remetendo a um fato ou situação dada, ainda que eles próprios sejam o alvo dessa crítica.
O humor é constituído como ato de fazer graça e como fazer sentido dialogando com o texto. Dessa forma é celebrado no espaço na mídia para que seja expresso e divulgado, como é o caso do enfoque dado pelo artista multimídia estudado, Paulo Caruso, cuja charge é política.
O humor e o riso são, pois, formas de demonstrar essa crítica ou de simplesmente fazer piadas a respeito de um fato ocorrido nesse meio, o qual, se torna mais conhecido da sociedade, ao passo que os personagens envolvidos se tornam excelente alvo dos humoristas “de plantão” no meio midiático, seja essa manifestação de humor expressa sob a forma de anedotas, ironias, paródias musicais, charges, cartuns ou caricaturas. Segundo Bakhtin (2008, p. 57), “o riso tem um profundo valor de concepção do mundo, é uma das formas capitais pelas quais se exprime a verdade sobre o mundo na sua totalidade, sobre a história e sobre o homem”.
REFERÊNCIAS
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*Doutorando pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, e-mail fabiocasantos@yahoo.com.br,
*Doutorando pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, e-mail fabiocasantos@yahoo.com.br,
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