Alda Mendes BAFFA – (Mestre em Educação)*
GEPEC – FE UNICAMP
Apenas o outro pode, de maneira convincente, no plano estético (e ético), fazer-me viver o finito humano, sua imaterialidade empírica delimitada. Num mundo que me é exterior, o outro se oferece por inteiro à minha visão, enquanto elemento constitutivo deste mundo. A cada instante, vivo, distintamente todas as fronteiras do outro, posso captá-lo por inteiro com a visão e o tato; vejo o traçado que lhe delimita a cabeça, o corpo contra o fundo do mundo exterior; no mundo exterior, o outro se mostra por inteiro à minha frente e minha visão pode esgotá-lo enquanto objeto entre os outros objetos, sem que nada venha ultrapassar o limite de sua configuração, venha romper sua unidade plástico-pictural, visível e tangível.
Mikhail Bakhtin
O presente estudo trata da formação de professores, da relação entre ensino e aprendizagem e de uma articulação entre ética e estética na formação docente e sua prática discursiva.
Na sociedade com profundas transformações socioeconômicas, com mudanças tecnológicas aceleradas, a formação e prática do professor deve ser vista no campo de possibilidades inovadoras. A formação do professor inovador pressupõe a descoberta do outro como ser ético e com pensamento crítico e autônomo, contextualizando, histórica e socialmente falando, esse aluno que se faz ser.
No mundo da vida esse ser está entre dois campos: o ético – onde o aluno tem o outro que lhe ensina, lugar de descobertas, onde o aluno se faz educar cognitivamente; e o estético – do professor que faz da educação uma arte, “da boniteza” do ato de educar com êxtase. Assim o professor deve deixar de ser só um ser ensinante, para ser um “encantador” da aula, como acontecimento maior do processo ensino-aprendizagem.
A formação do professor inovador pressupõe ainda uma formação para o incerto e a renovação, com atitudes de cooperação e solidariedade, com ação progressiva, fazendo da Educação uma Arte e do ato de educar um acontecimento que considere seu aluno um ser inacabado, pois se o professor considera ele mesmo um ser acabado e o acontecimento também, ele não pode nem viver e nem agir.
Lembra-nos tanto Paulo Freire (1998) como Bakhtin (2000) que no mundo dos acontecimentos da vida, campo próprio do ato ético, estamos sempre inacabados, porque definimos o presente como consequência de um passado que construiu o pré-dado e pela memória do futuro como se definem as escolhas no horizonte de possibilidades. Segundo Bakhtin (2000), nosso acabamento atende a uma necessidade estética de totalidade, e esta somente nos é dada pelo outro. A vida como acontecimento ético aberto não comporta solução e fixidez.
Mas como o professor tem visto o seu aluno: um ser sem voz ativa, passivo, ser confuso? A linguagem do professor está ligada a que visão de mundo? O discurso do professor está sustentado por argumentos que levam em consideração a natureza ética e estética do acontecimento da interação verbal?
Conforme Bakhtin (2000), uma obra é estética quando há um acabamento. A contemplação estética é holística (enxerga o todo). Como professor, não posso encontrar álibi para minhas aulas. Sem risco não há educação possível. Sou responsável pelos meus atos. Assim, a ética está presente em questões como o dialogismo, o processo em si de interação entre professores e alunos. Ao refletir sobre o seu discurso e olhar para si mesmo e para o seu aluno o professor avalia sua aula, seu diálogo, garantindo o reconhecimento do outro como ser em contínua formação; agindo e fazendo (no sentido ético do seu ato) refletir sobre o agir (elaboração estética) do acabamento de sua aula. Assim escreveu Bakhtin:
Tudo o que me diz respeito, a começar por meu nome, e que penetra em minha consciência, vem-me do mundo exterior, da boca dos outros (da mãe, etc.), e me é dado com a entonação, com o tom emotivo dos valores deles. Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formação original da representação que terei de mim mesmo. (2000, p.55)
Palavras-chave: ética, estética, dialogia.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. 9ª edição. São Paulo: Hucitec, 1999.
____________. Estética da Criação Verbal. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BRAIT, Beth (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2001.
CLARK, Katerina e HOLQUIST, Michael. Mikhail Bakhtin. São Paulo: Perspectiva, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 21ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
____________. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 5ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
____________. Linguagem e ensino. Exercícios de militância e divulgação. 1ª edição. Campinas: Mercado de Letras / ABL, 1998.
____________. A aula como acontecimento. Aveiro, Portugal: Universidade de Aveiro, 2004.
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