domingo, 19 de setembro de 2010

Linguística, ato e Bakhtin: reflexões em torno da configuração de uma disciplina


Marina Célia MENDONÇA[1]
Este texto não tem um formato que possamos considerar como qualificável nos atuais “parâmetros” de avaliação da pesquisa desenvolvida no país, cujos indícios encontram-se nos campos a se preencherem no currículo Lattes. Este evento não somente inovou na sua estrutura, que convida ao diálogo em seu sentido mais democrático, mas também na produção escrita que demanda: escrita como espaço de compartilhas, debate, inquietação (escrita incompleta, portanto, cujo acabamento se dá como função do outro). Este texto é um pouco disso tudo, em linguagem que se propõe o mais simples possível, pois a metalinguagem de/sobre Bakhtin me parece que afasta o simpatizante de suas ideias.
A proposta do “Rodas de Conversa Bahktiniana” deste ano coloca na centralidade dos debates a relação, na atualidade, entre o ato ético e o estético tal como pensados por Bakhtin (1997, 2000) e seu círculo. Uma inquietação que me move e que direciono aos leitores é como a questão do “ato” foi incorporada nas pesquisas empreendidas pela Linguística, em seus dilemas na sua constituição como disciplina “científica”. Procuro percorrer alguns caminhos dessa “incorporação” e, a seguir, destaco algumas reflexões sobre a incorporação das ideias de Bakhtin ao fazer desse pesquisador.
Vejamos: o interesse pela linguagem como “evento” (e, portanto, não somente como instrumento de comunicação ou referência) esteve presente, por exemplo, na filosofia do século XX. Reporta-se a J. L. Austin, frequentemente, quando se fala da relação entre linguagem e ação. O autor é um dos grandes expoentes da chamada Filosofia da Linguagem Ordinária ou Escola de Oxford (ramificação da Filosofia Analítica). Utilizo aqui sua obra mais conhecida, cujo título original é How to do things with words (AUSTIN, 1990), que reúne conferências proferidas em 1955 na Universidade de Harvard sobre os atos de fala.
Podemos dizer que uma das maiores contribuições de Austin nesta obra é a reflexão sobre a ética do dizer, sobre o caráter contratual da interação verbal. Acrescentem-se as contribuições de se pensar a linguagem como uma prática social concreta (ele parte, em sua reflexão, da linguagem cotidiana e defende que o sentido deve ser encontrado numa situação concreta do uso linguístico, com falantes que interagem tendo em vista convenções sociais) e de se tomar a linguagem como ação, forma de atuação sobre o real, e portanto de constituição da realidade, não meramente de representação.
Essa forma de concepção da linguagem influenciou estudos linguísticos que se organizaram de forma não muito uniforme na área da Linguística que se denomina Pragmática. Mas, na década de 1960, na França, os estudos desenvolvidos por essa ramificação da filosofia ainda eram considerados um “outro” para a Linguística. Tomo como indício dessa separação uma exposição oral de Benveniste, na abertura de um evento de filosofia em 1967. O linguista francês agradece a oportunidade de interagir com filósofos que debatem entre si problemas de linguagem e completa:
Nas comunicações e nas discussões que ocorrerão nestes dias, a filosofia retornará assim a uma de suas fontes maiores de permanente inspiração e ao mesmo tempo serão propostas à atenção dos linguistas , daqueles que se ocupam da linguagem como especialistas, como se diz, algumas maneiras, provavelmente diferentes, de refletir sobre a linguagem. Assim começará, tardiamente é preciso dizê-lo, uma troca que pode ser de grande valia. (BENVENISTE, 1989, p. 220)
Benveniste é também constantemente citado como autor que contribui com estudos sobre o ato de enunciar; para o autor, a enunciação produz a subjetividade, a temporalidade e implanta diante do eu o tu (ou seja: a enunciação produz ainda a intersubjetividade). No mesmo texto citado acima, temos uma proposta do autor para os estudos semânticos, não abandonando os pressupostos saussurianos, mas a eles acrescentando um outro domínio para o estudo da língua enquanto forma e sentido, o domínio “semântico”:
A noção de semântica nos introduz no domínio da língua em emprego e em ação; vemos desta vez na língua sua função mediadora entre o homem e o homem, entre o homem e o mundo, entre o espírito e as coisas, transmitindo a informação, comunicando a experiência, impondo a adesão, suscitando a resposta, implorando, constrangendo; em resumo, organizando a vida social dos homens (...) (BENVENISTE, 1989, p. 229, itálico adicionado)
No final da década de 1960, ainda na perspectiva da filosofia, é publicada obra de J. Searle que amplia (ou melhor, delimita) a reflexão sobre os atos de fala, em estudo dos atos ilocucionários propostos por Austin. Este filósofo distingue três tipos de atos: locucionários, ilocucionários e perlocucionários, presentes em todo “evento” de linguagem. O primeiro é da ordem do dizer; o segundo alia a um dizer um fazer; o terceiro alia o dizer ao fazer com consequências. Nesse sentido, é nessa terceira dimensão do ato, digamos assim, que se encontra propriamente o valor ético da linguagem – entretanto, Searle e a linguística que desenvolveu suas reflexões deram ao ato um tratamento formalizado na forma de força ilocucionária... Estabilizou-se, então, na linguística, como categoria pertinente de descrição da interação verbal, um ato da ordem do dizer-fazer, mas a ordem do porvir do dizer, da responsabilidade do falante, ficou restrita em nosso meio, me parece, mesmo que esse movimento de velamento da importância do porvir nas ações realizadas na enunciação tenha encontrado resistências – podemos citar aqui estudo de Osakabe (1979) sobre o discurso político, em que o autor defende a centralidade do ato perlocucionário nas atividades enunciativas.
Quanto aos estudos de Benveniste, pode-se dizer que eles contribuem com as pesquisas da Linguística no que toca ao ato de enunciar. Como acontece com a recepção dos escritos de Bakhtin, há muitas leituras desencontradas do autor, mas isso não é objeto de reflexão neste texto. Gostaria somente de destacar como o diálogo e a subjetividade podem ser entendidos (e o foram, efetivamente) em seus escritos: o primeiro, como interação verbal imediata; a segunda, como uma subjetividade na e pela língua, o que autoriza, quando se abraça essa perspectiva, a pensar o sujeito como de linguagem, no pior sentido. Isso remete, no apagamento do “espírito à frente de sua época” que foi Benveniste, às teorias linguístico-discursivas da imanência... Ainda desejo considerar a questão da subjetividade em Benveniste retomando a ideia inovadora do autor para a Linguística da época de que o eu, ao enunciar, implanta diante de si o outro (BENVENISTE, 1989, p. 84). Esse outro, previsto no discurso do eu, ora é tomado como papel discursivo e projeção do leitor, ora como alocutário previsto por um locutor, ora como um lugar a ser ocupado no discurso... em todos esses casos, o outro é destituído de seu papel de agente.
Fica, então, para as discussões que se seguirão neste evento, pensar essa pedra no caminho da linguística (no caminho dos estudos do discurso, em especial) que é o outro do discurso. Penso, neste caso, o outro da interação verbal (interlocutor, leitor). Fica como estímulo ao debate pensar essas formas de “integrar” o outro em pesquisas sobre a linguagem. Em Bakhtin, o outro é um agente concreto, respondente efetivo do discurso que lhe é dirigido (ele, leitor ou interlocutor na interação verbal, é parte do porvir que se realiza e se torna presente), é sujeito que se define na relação com o eu (este que tem em relação ao outro um excedente de visão), mas sujeito que não se mistura com o eu. Os escritos do círculo de Bakhtin (retomemos, por exemplo, Bakhtin, 2000) são inspiradores de uma atividade analítica participativa que não abra mão de colocar em primeiro plano o papel do outro na constituição do discurso e da subjetividade, em que o outro não é anulado em nome de uma imanência dos sentidos ou em nome da força das ideologias. Acredito ser preciso, ainda, lutar para dar a voz ao outro nas atividades estéticas de construção do conhecimento empreendidas pelo linguista. Assim, ao outro damos o direito de ser diferente, e não o tratamos como desigual (sobre o outro como diferente e desigual, ver Geraldi, 2003).
Um segundo ponto de reflexão que coloco ao grupo (e aos colegas pesquisadores) é como a dimensão do ato em Bakhtin problematiza as fronteiras entre Estudos Literários e Linguística, tal como configuradas na esfera acadêmica brasileira. Essas fronteiras, se decididamente delimitadas nos diversos centros de ensino e pesquisa do país, ainda não estão explicitadas na Capes, estando ambas as áreas inseridas na grande área “Letras e Linguística”. O tema, tenso, está na pauta dos dirigentes de nossa pesquisa. Nesse sentido, também podemos ver em Bakhtin um homem à frente de seu tempo, que adiantou em um século os nossos dilemas (seus textos sobre a relação entre o ato ético e o estético, e sobre a relação entre o autor e o herói, o eu e o outro são do início do século XX). O caráter radical de suas ideias (muito mais que as de Austin e Benveniste) e a herança cartesiana na produção do conhecimento somam-se, acredito, para explicar a resistência da Linguística em incorporar, em seus estudos, a relação entre ato ético e estético na eventicidade do ser. Enquanto o autor diluiu fronteiras, nós as estamos fortalecendo.
REFERÊNCIAS
AUSTIN, J. Quando dizer é fazer – palavras e ação. Tradução de Danilo Marcondes de Souza Filho, Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
BAKHTIN, M. Hacia uma filosofia del acto ético. In Hacia una filosofía del acto ético.  De los borradores y otros escritos (comentarios de Iris Zavala e Augusto Ponzio). Barcelona/San Juan. Anthropos/Univ. de Puerto Rico.1997.
_________. Estética da criação verbal. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BENVENISTE, E. A forma e o sentido na linguagem. In: _______.  Problemas de Linguística Geral II. Campinas: Pontes, 1989.
GERALDI, J. W. A diferença identifica. A desigualdade deforma. Percursos bakhtinianos de construção ética e estética. In: FREITAS, M. T.; JOBIM e SOUZA, S.; KRAMER, S. Ciências humanas e pesquisa: leituras de Mikhail Bakhtin. São Paulo: Cortez, 2003.
OSAKABE, H. Argumentação e discurso político. São Paulo: Kairós, 1979.



[1] Docente do Departamento de Linguística da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP-Araraquara).

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