Francismar Formentão
Este texto sinaliza um caminho construído e um caminho ainda pretendido para estudos mais abrangentes sobre as possibilidades metodológicas da filosofia da linguagem no estudo da comunicação. Estudar Mikhail Bakhtin implica no reconhecimento da existência de várias perspectivas de entendimento, principalmente por seus textos fazerem parte de um círculo de valores variados, e carregar um diálogo competente e denso com pesquisadores e métodos diversos.
Assim, apresento fragmentos de estudos produzidos em diálogos que objetivam discutir um caminho para a compreensão de um método e, se possível, sua futura sistematização para os estudos da comunicação. Um texto aberto e inacabado, diante das possibilidades da filosofia da linguagem no estudo epistemológico, ético, estético, cognitivo e ontológico. Estudo que busca evidenciar o rigor ético-filosófico dos textos do próprio Bakhtin, sem a rigidez que determina, limita e encerra o pensar cientifico.
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Os parâmetros epistemológicos deste método formam uma arquitetura que dimensiona as relações homem-mundo, sujeito-objeto do conhecimento e conectados à ação humana. A arquitetônica do conhecimento incorpora dialogicamente o processo histórico e as condições de elaboração de epistemes no processo de transformação contínua, na dinâmica das forças vivas sociais que se determina ética e esteticamente. Bakhtin une dialeticamente sua fundamentação em movimentos dialéticos que com o signo ideológico e a alteridade vincula diversas categorias conceituais, como dialogismo, cronotopo, exotopia, polifonia, palavra, esfera, campo, enunciação, ética, estética, entre outras.
No signo, Bakhtin apresenta como condição intencional e com uma objetivação específica: a totalidade que implica a consequente reflexão sobre os planos, níveis, interações dos discursos produzidos entre a infra- e a superestrutura existentes concretamente, articulando elementos físicos, mentais, emocionais, perceptivos, cognitivos e “psicológicos” entre si e na produção do sentido.
Destaca-se assim, a totalidade se determina historicamente nas mediações e pelas mediações “pelas quais suas partes específicas ou complexas – isto é, as ‘totalidades parciais’ – estão relacionadas entre si, numa série de inter-relações e determinações recíprocas que variam constantemente e se modificam” (BOTTOMORE, 1988, p. 381). Ou seja, as esferas/campos que se dialogizam, estabelecendo conteúdo e forma sígnica na produção de sentido.
A concepção dialógica da criação verbal engloba a relação vida/cultura, o real concreto, a formação da consciência dos indivíduos e a materialidade sígnica de todas as produções humanas dotadas de valor; descentraliza o sujeito e o reconduz à situação de agente ativo em interação constante e fluída, um sujeito responsivo e responsável. Nessa concepção, a mediação é integrante teórico-prático no plano volitivo-emocional e ético-cognitivo, unindo o mundo sensível e o mundo inteligível em conteúdo-forma-processo.
A originalidade desta concepção reside em articular elementos como discurso, enunciado, enunciado concreto e alteridade, são elementos nucleares dessa concepção explicitados em sua materialidade histórica, em sua materialidade semiótica, social e cultural da interação comunicativa. As relações entre linguagem-sociedade-ideologia são examinadas por Bakhtin, considerando o discurso em sua forma e conteúdo como objeto de significação na cultura social e histórica, que inclui a enunciação (contexto) em suas particularidades (enunciações anteriores e posteriores que são o fluxo de circulação de discursos) e conecta sujeitos que se integram em um processo verbal e extraverbal. Essa necessidade do outro é celebrada na alteridade e no discurso sua evidência e entendimento está no dialogismo.
O sujeito, no evento de ser, processo de devir existencial, constitui-se como tal na cultura em tempo e espaço dinâmicos que entrelaçam passado e presente, compartilhados pelos demais sujeitos sociais e principalmente, num espaço ou arena de confronto de valores. Define-se, desse modo, o produtor do discurso, todo e qualquer sujeito, as criações artísticas, culturais e científicas, o tempo homogêneo/heterogêneo nas esferas da comunicação. As fronteiras entre o homem e a natureza são do sujeito do conhecimento imerso na contradição histórica e nos impelem ao questionamento das relações entre eu e os outros em termos de formação de consciência, de identidades, valores, educação, direitos e deveres, de uma existência particular numa vida coletiva.
Assim a identidade constituída em um circuito de comunicação, de signos valorados axiologicamente, é forjada interativamente no e pelo outro(s) sustenta-se na diferença, apresentando aspectos “subjetivos” e “objetivos” provenientes do processo de internalização de relações sócio-histórico-ideológicas e culturais no fluxo da cadeia sígnica. Esta identidade caracteriza-se pelo agir do sujeito no fluxo da comunicação, pela compreensão responsiva que tem deste fluxo e pela compreensão responsiva que empreende em suas relações interdiscursivas, tanto quanto pela perspectiva de meio social/cultural em que está inserido, isto é, no uso do material semiótico que se encontra a sua disposição, no confronto sígnico de valores contraditórios.
Em Bakhtin percebe-se uma filiação ao conceito de ideologia como foi concebida por Karl Marx e Friedrich Engels: ambos criticaram as concepções com relação à religião feita pelos materialistas franceses e notadamente por Ludwig Feurbach, tanto quanto as análises teóricas da filosofia alemã expressas no idealismo de George Wilhelm Friedrich Hegel. Embora o idealismo de Hegel concedesse ao sujeito a primazia de sua atividade em sua ação no mundo, essa atividade reduzia-se à atividade da consciência e é exatamente nesse ponto que Marx e Engels explicam como o idealismo produzia formas invertidas de consciências humanas em relação a suas próprias existências materiais.
No pensamento Bakhtiniano a ideologia aparece de forma material no signo e não oculta as contradições do capitalismo, e sim, traz a materialização dessas contradições no signo. O autor apresenta movimentos dinâmicos entre uma ideologia oficial e uma do cotidiano, estando ambas em interação na circulação permanente de signos e de sujeitos em interação e em devir, atingindo nestes signos a materialidade que apresenta a função ideológica que determina a vida histórica-material.
[...] Bakhtin e seu círculo puderam estabelecer, bem a seu gosto, uma relação dialética se dando entre ambos[1], na concretude. De um lado a ideologia oficial, com estrutura e conteúdo, relativamente estável; de outro, a ideologia do cotidiano, com acontecimento, relativamente instável; e ambas formando o contexto ideológico completo e único, em relação recíproca, sem perder de vista o processo global de produção e reprodução social. (MIOTELLO. In: BRAIT, 2005, p. 169).
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Mikhail Bakhtin ultrapassa a visão marxista de troca equivalente entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Esclarece a heterogeneidade entre a consciência e a matéria, enfatizando o material em sua externalidade; o marxismo ocidental direcionou-se para as considerações de reflexo entre sujeito e objeto do conhecimento.
A apreensão dos fundamentos teórico-metodológicos de Mikhail Bakhtin no estudo da comunicação apresenta pertinência na sua tradutibilidade e compreensão do passado e do presente históricos em relações dialógicas (interdisciplinares, de interação discursiva) privilegiando a tradição dialética/dialógica e materialista histórica (conteúdo/forma), mas ampliando-a: conteúdo se constitui para Bakhtin no elemento ético-cognitivo e a forma em elemento estético de sentido. Unem-se a realidade do conhecimento “como o mundo e seus momentos” com todos os seus valores éticos e a forma ao expressar “uma relação substancial com todos os valores do conhecimento e do ato” (BAKHTIN, 1998, p. 35).
A unidade forma-conteúdo foi explicada por Marx para expor o funcionamento da sociedade capitalista e a emancipação da classe trabalhadora. Ele preocupou-se com a reconciliação de forma e conteúdo no vir-a-ser histórico e no potencial da realização humana. Bakhtin efetiva essa reconciliação apresentando a perspectiva estética, para ele
[...] o conteúdo e a forma se interpenetram, são inseparáveis, porém, também são indissolúveis para a análise estética, ou seja, são grandezas de ordem diferente: para que a forma tenha um significado puramente estético, o conteúdo que a envolve deve um sentido ético e cognitivo possível, a forma precisa do peso extra-estético do conteúdo, sem o qual ela não pode realizar-se enquanto forma. (BAKHTIN, 1998, p. 37).
O elemento ético-cognitivo está por sua vez, também, indissoluvelmente ligado com o mundo real e como objeto do conhecimento e do ato ético, dotado de valores. A forma estética só adquire sentido na mesma medida axiológica que expressa uma relação consistente os valores do conhecimento e do ato ético. (BAKHTIN, 1998, p. 35-37).
A contribuição de Bakhtin define-se numa interação dialética de conteúdo-forma na ação objetiva/subjetiva de seres humanos socialmente organizados, evidenciando as contradições produzidas e materializadas em cadeias semióticas que existem com inúmeros valores axiológicos em níveis que variam da ideologia oficial a do cotidiano em constante movimento e devir em tempo/espaço, fornecendo subsídios para a compreensão das condições sociais da comunicação e da materialização histórica do homem.
Nesse processo de alteridade, o outro é de fundamental importância, pois implica em interação entre o eu e o outro, em que ambos se incluem mutuamente, numa relação recíproca, se definindo na tríade eu-para-mim, outro-para-mim e eu-para-o outro, numa ação concreta. Essa ação se materializa no ato, no discurso, requer uma compreensão responsiva e responsável de ordem ética e cognitiva (conhecimento), dos sujeitos em interação em um devir também situado, contextualizado no tempo histórico.
Nas relações sociais existe uma dinâmica fluída, dialógica que conduzem à produção do sentido. Em Bakhtin, essa produção do sentido não é absolutizada e nem relativizada axiologicamente, e sim, estabelecida como um processo aberto do vir-a-ser humano.
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Percebe-se uma proposta dialética que se centra no aprofundamento do conhecimento iniciado por uma precedente síntese precária e por uma compreensão genérica imediata para, gradativamente, conduzir o que é conhecido do complexo e abstrato ao mais simples, retornando ao mais complexo, ao concreto. “E devemos sublinhar outra coisa: cada totalidade tem a sua maneira diferente de mudar; as condições da mudança variam, dependendo do caráter da totalidade e do processo específico do qual ela é um momento.” (KONDER, 2000, p. 40).
A concepção dialética de conteúdo e forma constitui uma mediação, que nega o concreto filosófico geral que “designa o conjunto de elementos, dos aspectos que constituem uma coisa dada, um objeto dado” (CHEPTULIN, 1982, p. 263). Descartando as concepções idealistas e metafísicas de conteúdo e forma, o monismo materialista concebe que esses elementos formam uma única unidade orgânica, interdependente. “O papel determinante nas relações conteúdo-forma é desempenhado pelo conteúdo. Ele determina a forma e suas mudanças acarretam mudanças correspondentes da forma. Por sua vez, a forma reage sobre o conteúdo, contribui para seu desenvolvimento ou o refreia.” (CHEPTULIN, 1982, p. 268).
O conteúdo transforma-se constantemente e a forma tende a manter-se estável de modo relativo, por um tempo maior. A partir do momento em que a forma (sistemas estáveis) se torna um obstáculo ao conteúdo (conjunto de processos), a não-correspondência entre ambos eclode em eliminação dessa forma, e o aparecimento de outra que atinge um nível qualitativo diferenciado; como quando na literatura se diz “da refeição e da destruição da antiga forma e da criação de uma forma nova, temos, em geral, uma vista às mudanças na forma que a adaptam ao desenvolvimento do conteúdo no quadro da antiga forma” (CHEPTULIN, 1982, p. 269).
Adail Sobral (2005-b), em “Filosofias (e Filosofia) em Bakhtin”, especifica que os intelectuais do Círculo de Bakhtin, no conceito da unidade singularidade/generalidade, propunham a análise de objetos de estudo mediante “procedimentos” que contemplassem a “identificação e explicação de relações (não dicotômicas) entre elementos dos objetos estudados” (SOBRAL. In: BRAIT, 2005-b, p. 137). O autor destaca entre elas “forma-conteúdo-material, resultado-processo, material-organização-arquitetônica, universalidade-singularidade, objetividade (o real concreto) – objetivação (manifestação semiótica da objetividade), estética/ética/cognitiva” entre outras.
Em Bakhtin, também existe uma originalidade em demonstrar que, mantendo-se a unidade conteúdo-forma, acrescenta-se a “natureza do material” e os “procedimentos por ele condicionados” (BAKHTIN, 2003, 177-178). A forma é dependente do conteúdo e do material. Nos signos ideológicos, o objetivo é o conteúdo. Este conteúdo ético-cognitivo será enformado e concluído, subordinando o material ao próprio objetivo. Concluir implica a subordinação do material e alcançar o objetivo ético-cognitivo ou “tensão ético-cognitiva”. Há necessidade de superar o material na tarefa comunicativa.
Assim, a comunicação mediada, um processo de trânsito de conteúdos e formas, supera a linguagem a fim de um sentido, ou a superação da própria forma para a conclusão de um novo discurso, evidencia a obediência de uma lógica criativa, “uma lógica imanente da criação”, com os valores da produção de sentido, o contexto do “ato criador” (BAKHTIN, 2003, 179).
O conteúdo apresenta os elementos do mundo da vida, forjado em parâmetros éticos e cognitivos. Interligado, conteúdo e forma são mutuamente condicionados, produzindo sentido na própria criação. A atividade estética agrega sentidos de forma acabada, e auto-suficiente. Trata-se de um ato que passa a existir em um novo campo axiológico, num devir da interação comunicativa. Assim, o material também se condiciona com forma e conteúdo, em que o signo é o meio de expressão; o material deve ser superado, aperfeiçoado num contexto de criação em que forma e conteúdo revelam o signo em sua superação, numa mediação social.
As sínteses, o pensar dialético do abstrato ao concreto, contemplam as contradições e mediações. A representação, a opinião, o conceito, a experiência do sujeito no mundo, movimentam-se do imediato para sínteses ricas, articuladas, compreensíveis: “o concreto se torna compreensível através da mediação do abstrato, o todo através da mediação da parte” (KOSÍK, 1976, p. 30).
É desta forma que o dialogismo nos textos de Bakhtin e seu Círculo trata do “princípio geral do agir” dos seres humanos, pois, toda interação comunicativa tem como ponto de referência o “contraste com relação a outros atos de outros sujeitos” (SOBRAL, In: BRAIT, 2005-a, p. 106). É também o princípio gerador da linguagem e da produção de sentido do discurso, todos os discursos empreendem o dialogismo “retrospectivos e prospectivos com outros enunciados/discursos” (SOBRAL. In: BRAIT, 2005-a, p. 106).
Para compreender a comunicação e sua relação com o signo ideológico, Bakhtin determina que o signo sempre precisa ser pensado na sua materialidade, não separando a ideologia desta realidade material, integrando-o às formas concretas da comunicação social organizada e também não dissociando a comunicação e suas formas da base material da sociedade (BAKHTIN, 1995, p. 44).
Esta direção carrega as marcas ideológicas e a materialização dos signos nas esferas e dos campos sociais, em um horizonte social de uma época (espaço/tempo) e de um grupo social com um índice de valor? (conteúdo). (BAKHNTIN, 1995, p. 44). Juntos, forma e conteúdo, na interação social, produzem sentido ideológico que, axiologicamente tenciona as tramas destes campos envolvidos.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: contexto de François Rebelais. São Paulo: Hucitec. 1987.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo : Hucitec, 1995.
BAKHTIN, Mikhail. O freudismo: um esboço crítico. São Paulo: Perspectiva, 2004.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Editora UNESP, 1998.
BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
CHEPTULIN, Alexandre. A dialética materialista: categorias e leis da dialética. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1982.
FORMENTÃO, Francismar. Palavra e imagem: signos do presidente Lula na mídia impressa. Cascavel: Editora Coluna do Saber, 2008.
KONDER, Leandro. Marx: vida e obra. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
KONDER, Leandro. O que é dialética? São Paulo: Brasiliense, 2000.
KOSÍK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Moraes, 1984.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2004.
MARX, Karl. 1818-1883. Mercadoria e dinheiro. In: O capital: crítica da economia política: livro primeiro o processo de produção do capital. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 1987.
MARX, Karl. O 18 brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Prefácio à “Contribuição à Crítica da Economia Política”. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. v. 1. São Paulo: Alfa-Omega, 1980.
MIOTELLO, Valdemir. Ideologia. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005.
PONZIO, Augusto. A revolução Bakhtiniana: o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. São Paulo: Contexto, 2008.
SOBRAL, Adail. Ético e estético. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005-a.
SOBRAL, Adail. Filosofias (e filosofia) em Bakhtin. In : BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005-b.
[1] O autor se refere à ideologia como ideologia do cotidiano e como o instante em que “[...] a divisão social do trabalho separa trabalho manual e intelectual” (MIOTELLO. In: BRAIT, 2005, p. 169).
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