Jardel Pelissari Machado
Aluno do PPG Mestrado em Psicologia UFPR
machado.jardel@yahoo.com.br
A produção de conhecimento em Ciências Humanas passa pelo texto. Não apenas como meio de transcrição ou publicação de resultados obtidos em campo, a produção textual (escrita ou oral) em Ciências Humanas implica o lugar assumido pelo pesquisador e sua(s) relação(ões) com seu outro(s).
Partindo da compreensão de que a produção do conhecimento e o texto em que se dá constituem-se como arena na qual conflitam múltiplos discursos, há, entre o discurso do analisado e do analista, uma imensa gama de sentidos, o que conduz à necessidade de assumir o caráter conflitual da linguagem, renunciando a toda ilusão de transparência, de diretividade, da linguagem.
Ao pensar a problemática do texto nas Ciências humanas, é inevitável repassar pelos conceitos bakhtinianos, tão difundidos, de monologia e dialogia. O primeiro não necessariamente remete à idéia de discurso dogmático, mas sim de uma única voz que se faz presente, um efeito de ausência de diálogo. Opondo-se a ele, o dialogismo ressurge enquanto multiplicidade de vozes, sempre em tensão. Pensar a constituição de um discurso monológico nos leva a identificar dois níveis de análise: o histórico-orgânico (no qual o monologismo não faz sentido, pois todo enunciado é constitutivamente dialógico, uma vez que há sempre a voz de um leitor, um outro já posto); e o composicional (no qual as vozes se dão mais ou menos a perceber, sempre em um princípio tendencial, nunca absoluto). Neste último, o discurso monológico constitui-se daquele que apresenta um objeto numa relação direta com esse objeto (sem trazer consigo outras vozes); e o dialógico o que apresenta o objeto recorrendo a outros enunciados que foram estabelecidos com o mesmo (enunciado que é representado e representante, no mesmo gesto).
A partir da relação monologismo/dialogismo, a questão do silêncio, como evidencia Marília Amorim (2002), constitui-se como ponto imprescindível de ser pensado nas ciências humanas, compondo-se como indício de vozes caladas. É no silêncio, segundo a pesquisadora, que podemos, por vezes, encontrar o único signo do outro, ou mesmo a presença de um constrangimento da ordem de um regime discursivo. Nesse sentido, a constituição desse silêncio tem sua significação no contexto do próprio texto.
Pensar o trabalho do pesquisador em Ciências Humanas também nos leva ao conceito de exotopia, central para pensarmos a diferença fundamental de valores entre o retrato que faço de alguém e o retrato que esse alguém faz de si mesmo. Se meu olhar sobre o outro não coincide nunca com o olhar que ele tem de si, enquanto pesquisador, “minha tarefa é captar algo do modo como ele se vê, para depois assumir plenamente meu lugar exterior e dali configurar o que vejo do que ele vê.” (Amorim, 2005, p. 14).
Talvez uma preocupação mais recorrente para as áreas da psicologia e da antropologia, por dedicarem-se ao estudo da subjetividade (e/ou seu plural), as relações entre pesquisador e pesquisado, relações alteritárias, remetem diretamente à problemática das vozes no texto. A precisão do conceito de voz, nesse âmbito, reside em não coincidir com a idéia de pessoa, remontando ao dialogismo enquanto tensão interior à palavra de uma só pessoa. Nesse contexto, ganha foco o jogo de fazer falar ou fazer calar as vozes em um texto.
Os sujeitos, ou as consciências, não somos reflexo de uma sociedade exterior. Não somos, da mesma forma, origem absoluta de enunciados (de sua expressão), não temos sobre eles seu total controle. Somos constituídos dentro das inúmeras relações sociais, sendo respondentes e responsáveis por nossos enunciados – uma consciência que se alimenta dos signos sociais, devendo ela própria ser interpretada como tal.
Nesse sentido, a alteridade se faz constituinte do sujeito, entendido nessa lógica dialógica, numa relação ética e estética (porque valorada), orientada axiologicamente. O outro, interpretado como signo social também carrega índices de valor em sua imagem (significada pelo outro). No bojo da avaliação ética/estética, o outro significa minha imagem, me dá um lugar no tempo e no espaço.
Nesse sentido, para Marília Amorim (2005, p. 16)
“A teoria e a estética somente se tornam ética quando viram ato: quando alguém singular, numa posição singular e concreta, assume a obra ou o pensamento em questão. Assumir um pensamento, ser responsável por ele em face dos outros, num contexto real e concreto, tornar o pensamento um ato, eis o que torna possível um pensamento ético ou, como diz Bakhtin, um pensamento não-indiferente.”
A estética tornada ética pelo caráter responsável do ato, esse é o terreno em que se firma o pesquisador em ciências humanas. Assumir as relações alteritárias a partir de relações valoradas, orientadas, implica assumir um posicionamento e dar ao outro um lugar social.
Para Marília Amorim (2002), a “teoria das vozes” constitui-se um sistema que possibilita leitura crítica de textos em ciências humanas. Essa leitura, nas palavras da autora, “visa a identificar quais são as vozes que se deixam ouvir no texto, em que lugares é possível ouvi-las e quais são as vozes ausentes” (p. 8). Não se trata, portanto, de uma análise linguística ou mesmo literária, mas da riqueza e dos impasses do pensamento e do saber que são postos na arena textual.
A construção do texto em ciências humanas, portanto, constitui-se como um trabalho que consiste em orquestrar essas vozes, num processo de fazê-las falar ou calá-las. A partir do referencial bakhtiniano de análise, é impossível restituir, no texto, o sentido originário do que foi dito em campo. O texto se constitui sempre como um novo contexto. Tudo é dito a alguém, “e deste alguém dependem a forma e o conteúdo do que é dito” (Amorim, 2002, p. 9). Nesse sentido, a enunciação do pesquisador, mesmo que a transcrição de um diálogo de entrevista, não traz em si o mesmo sentido do diálogo ato singular e concreto. A apresentação desse diálogo constitui-se como outro enunciado, num outro contexto.
As relações alteritárias e o conceito de voz apresentam-se como centrais para a prática de produção textual do pesquisador (não somente nas duas áreas citadas), gerando consigo questionamentos que podem auxiliar na condução do trabalho do pesquisador, tanto em campo quanto no processo de escrita, quais sejam: que lugar assume e que lugar dá ao outro?; O que se faz com o enunciado do outro no texto?; Como perceber e estudar o sujeito não “a título de coisa porque, como sujeito, não pode, permanecendo sujeito, ficar mudo”? (Bakhtin, 1997, p. 403); Quais vozes são ouvidas, ou deixadas ouvir, e quais são ausentadas no texto? De que lugares é possível ouvi-las?
Pensar as relações estéticas e éticas e a criação não apenas no campo da arte, mas também da produção do conhecimento, situando o pesquisador como autor. Nesse sentido, a discussão sobre a estética e a ética remete diretamente aos questionamentos elencados acima, não fazendo referência unicamente ao contexto da criação artística, mas também da criação no contexto de produção de conhecimento nas ciências humanas. Remete ao movimento empreendido pelo autor, no limite entre objetividade e subjetividade (sem cair nos relativismos), de fazer ouvir ou fazer calar vozes (por constrangimento de um regime ou por apagamento do outro) na busca por uma verdade (provisória e em movimento) conduzindo àquilo que no enunciado é repetível, independente do contexto (transmissível de um contexto a outro), sem buscar substituir o acontecimento (o irrepetível, o caráter situado, evenemencial) por essa verdade, e vice-e-versa.
Nesse sentido, penso que as discussões sobre estética e criação não remetem exclusivamente ao campo da criação artística, mas também ao campo da criação/autoria na pesquisa em ciências humanas – nessa duplicidade reside grande importância em repensar a prática de pesquisador e os lugares atribuídos ao outro, ou às vozes que se faz serem ouvidas ou que são caladas.
Referências
Amorim, M. (2005). A contribuição de Mikhail Bakhtin: a tripla articulação ética, estética e epistemológica. In: M. T. Freitas, S. J. Souza, & S. Kramer, Ciências Humanas e Pesquisa: Leituras de Mikhail Bakhtin (pp. 11-25). São Paulo: Cortez.
Amorim, M. (2002). Vozes e silêncio no texto de pesquisa em ciências humanas. Cadernos de Pesquisa (116), 7-19.
Bakhtin, M. (1997). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes.
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