segunda-feira, 20 de setembro de 2010

AUTORIA E PROSÓDIA: um diálogo possível




Juliana Pereira Souto Barreto[1]

RESUMO:
Este estudo visa identificar, por meio da análise discursiva, os aspectos da entoação no texto oral acadêmico que justifiquem uma relação significativa entre prosódia e autoria. Ou seja, examina-se a ocorrência de elementos prosódicos na reconstrução do sentido nos textos orais produzidos pelo sujeito professor em sala de aula a partir de narrativas, fruto de releituras do conteúdo a ser abordado em aulas. A questão central da nossa investigação objetiva estabelecer uma relação entre prosódia e autoria no sentido de identificar a intenção ou vontade discursiva que se manifesta na escolha de uma determinada expressão entoacional do falante. O desenvolvimento deste artigo é possível por meio da identificação da autoria no texto oral acadêmico via prosódia. Tal processo ressalta a necessidade de observação do potencial prosódico linguístico do leitor/falante professor e do ouvinte em lidar com as novas linguagens, enfatizando a prática de uma leitura orientada, em que ler e interpretar sejam instrumentos que dão ao leitor/falante o poder de reorganizar o próprio pensamento. Propõe-se, portanto, a necessidade de retextualização para fornecer sentido aos conteúdos abordados em sala de aula, de forma que o sujeito falante adquira o poder de exercer seu discurso de maneira autêntica, como cidadão conhecedor e produtor de sentido.

Palavras-chave: prosódia; autoria; entoação; texto.


Procurando estabelecer uma relação coerente entre autoria e prosódia e a relevância do som para a língua, buscou-se ver de que forma estaria a prosódia vinculada ao conceito de autoria estabelecido por Bakhtin. Para o estudioso, “encontramos autor (percebemos compreendemos, sentimos, temos a sensação dele) em qualquer obra de arte.” (BAKHTIN, 2003, p. 314).
Essa imagem de autor, de que nos fala Bakhtin, é na verdade um conjunto de obras, artes, vozes, entre tantas outras coisas, representado por um único sujeito, que imprime a esse ato uma constituição de autoria, justamente por estabelecer uma relação com todas as informações que traz em sua bagagem de vida, a qual consegue representar em uma única imagem criadora:
Na relação criadora com a língua não existe palavra sem voz, palavras de ninguém. Em cada palavra há vozes às vezes infinitamente distantes, anônimas, quase impessoais (as vozes dos matizes lexicais, dos estilos, etc.), quase imperceptíveis, e vozes próximas, que soam concomitantemente (BAKHTIN, 2003, p. 330).
Um dos conceitos centrais do pensamento bakhtiniano é o de que é a voz, que vai permitir definir, a partir do dialogismo, a polifonia da palavra. A voz parece nos levar a perceber que ela, por si só, responde pela compreensão da representação de todas as vozes constituídas na concepção adquirida por uma única voz final, irrepetível, inconfundível e, portanto, portadora de autoria.
O que, em certo sentido, está de acordo com o que comenta Brazil (1985) sobre o sentido da compreensão da entoação, quando nos diz que o significado é constituído pelo “valor comunicativo” que, por sua vez, não é definido por respostas de caráter gramatical, mas pelo momento exato da enunciação, quando o falante consegue classificar o valor da experiência comunicativa ao longo da interação com os seus interactantes (BRAZIL, 1985, p. 05).
Com isso, o autor assume que a entoação, juntamente com a análise discursiva, deve buscar um sentido mais significativo para o objeto de estudo das análises entoacionais do que os apresentados com base em modelos de sentenças já pré estabelecidas. Brazil enfatiza, ainda, que não se deve postular uma linha divisória entre semântica e pragmática, uma vez que a pragmática envolve a parte do sentido da comunicação que somente pode ser explicada pelo contexto situacional, no qual todos os aspectos da manifestação do comportamento pragmático da linguagem devem ser levados em consideração (BRAZIL, 1985, p. 06).
Dentro desse universo polifônico, Bakhtin reinventa o conceito de voz quando o introduz em sua análise da entoação, reestabelecendo uma ligação entre intenção comunicativa, palavra, voz e autoria em sua interpretação sobre entoação. Qual seria a natureza dessa relação?
Para Bakhtin, não há enunciado dotado de significado ou mesmo representável sem uma avaliação da situação social que permite a veiculação desse enunciado. Se “a entonação estabelece um vínculo estreito da palavra com o contexto extraverbal” (BAKHTIN, 2003, p. 449), então a entoação prevalece sobre os outros componentes do enunciado que, por sua vez, são movidos por funções complementares, que precisam da entoação para significar algo.
No entanto, Bakhtin ressalta que a oração, enquanto unidade da língua, apresenta características de uma entoação gramatical específica e não uma entoação expressiva. O autor nos diz que as orações se situam, basicamente, entre as entoações gramaticais específicas, como a entoação de acabamento, a explicativa, a disjuntiva, a enunciativa, etc., cabendo, ainda, um papel especial à entoação narrativa, à interrogativa e à exclamativa. Porém, para o autor, a análise da oração de acordo com a entoação gramatical específica não basta para adquirir expressividade no sentido preciso do termo, pois “a oração só adquire entonação expressiva no conjunto do enunciado.” (BAKHTIN, 2003, p. 296):
Portanto, o elemento expressivo é uma peculiaridade constitutiva do enunciado. O sistema da língua é dotado das formas necessárias (isto é, dos meios ligüísticos) para emitir a expressão, mas a própria língua e as suas unidades significativas – as palavras e orações – carecem de expressão pela própria natureza, são neutras. Por isso, servem igualmente bem a quaisquer juízos de valor, os mais diversos e contraditórios, a quaisquer posições valorativas (BAKHTIN, 2003, p. 296).
Dessa forma, Bakhtin desqualifica a distinção entre entoação sintática e entoação expressiva, defendendo que, por um lado, a noção de entoação sintática não é satisfatória, pois isola um fragmento da língua, analisando-o separadamente do seu contexto social; por outro, a entoação, sendo essencialmente expressiva, não deve se restringir a uma categoria em particular. Dentro dessa concepção considerada dominante, tudo o que determina o enunciado fica resumido ao seu estilo e sua composição.
            Bakhtin organiza sua análise da entoação baseada na ideia de que esta ocorre sob a influência mútua de três atores: o locutor/autor, o ouvinte/leitor e o objeto do enunciado (BAKHTIN, 2003, p. 297). A partir da interação contínua desses três elementos é que se define a entoação que vai promover a compreensão social do enunciado. A entoação torna-se, então, ponto de articulação, a mediação primeira entre esses três atores.
A expressão do enunciado nunca pode ser entendida e explicada até o fim levando-se em conta apenas o seu conteúdo centrado no objeto e no sentido. A expressão do enunciado, em maior ou menor grau, responde, isto é, exprime a relação do falante com os enunciados do outro, e não só a relação com os objetos de seu enunciado (BAKHTIN, 2003, p. 297-298, grifo do autor).
Para o autor, a entoação é particularmente sensível e sempre indica o contexto. A entoação é responsável por promover o lugar de memória e o lugar de encontro. Lugar de memória acústica e social, pois tanto o locutor/autor quanto o ouvinte/leitor estão impregnados de entoações, ao mesmo tempo que reflete o grupo social ao qual pertencem. Lugar de encontro, pois a entoação é o resultado, além do objeto do enunciado; é o cruzamento desta com sua respectiva entoação.
Bakhtin vai mais além, quando diz que o discurso do outro “tem uma dupla expressão: a sua, isto é, a alheia, e a expressão do enunciado que escolheu esse discurso” (BAKHTIN, 2003, p. 299), articulando a entoação do enunciado citado verbalizado ao enunciado mental, sem que, por isso, sua constituição seja alterada. Pois, por mais monológico que seja o enunciado, por mais centrado no conteúdo que esteja, o enunciado irá se pronunciar de acordo com uma entoação que veicule sentido, expressão, estilo, ou seja, os matizes mais sutis que integram sua composição.
A exemplo de tais matizes, temos que, “matizes mais sutis do estilo são determinados pela índole e pelo grau de proximidade pessoal do destinatário em relação ao falante nos diversos gêneros” (BAKHTIN, 2003, p. 303, grifo do autor), isto é, o autor/falante percebe o seu destinatário em maior ou menor grau, o que sugere uma autenticidade especial ao enunciado.
O enunciado é, portanto, repleto de entoações dialógicas, as quais devem ser levadas em conta para que seja possível uma compreensão plena, pois “a nossa própria idéia – seja filosófica, científica, artística – nasce e se forma no processo de interação e luta com o pensamento dos outros” (BAKHTIN, 2003, p. 298), de maneira que se torna inevitável identificar o reflexo dessas interações também nas formas de expressão verbalizada pelo pensamento e pela intencionalidade.
            Para Bakhtin, “o enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva e não pode ser separado dos elos precedentes que o determinam tanto de fora quanto de dentro, gerando nele atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas” (BAKHTIN, 2003, p. 300). Esses elos precedentes dizem respeito aos diferentes pontos de vista, visões de mundo e correntes expressas em enunciados que são anteriores ao enunciado final verbalizado, o qual se relaciona não só com o seu objeto, o conteúdo, mas também com o discurso do outro sobre ele.
            Dessa forma, o enunciado final verbalizado não está ligado apenas aos elos precedentes, mas, também, se vincula aos elos subsequentes gerados por essa comunicação discursiva. Em princípio, quando o autor/falante pensa em seu enunciado, os elos subsequentes não existem. No entanto, ao ser verbalizado, o enunciado se constrói, levando em conta as atitudes responsivas de seus ouvintes/leitores, bem como a essência, em prol da qual o enunciado é criado, ou seja, os elos subsequentes. Sendo assim, os elos subsequentes dizem respeito às formas que o enunciado tomara para os seus ouvintes/leitores.
De fato, o ouvinte/leitor pré determina não só o conteúdo e a forma do discurso final – e, por conseguinte, sua entoação – como também o ato de consciência do autor/leitor dentro da entoação mental. Assim, o ato de consciência, não podendo produzir-se sem discurso interior – e, portanto, sem palavras e entoação –, está intrinsecamente inscrito em uma relação dialógica e de avaliação social estabelecida entre seus interlocutores.
Dessa forma, a própria natureza da interação é primeira e, imediatamente, de ordem da entoação. O espaço utilizado pelo texto, seja ele oral ou escrito, introduz o autor/leitor em um universo vocal/acústico – ou seja, próprio da prosódia –, em que o uso da voz exprime a avaliação social do contexto como um todo.
A partir dessa tentativa inicial em elucidar os aspectos prosódicos inscritos em textos bakhtinianos, procuraremos, em seguida, aproximar tais aspectos à ideia de autoria também apresentada pelo mesmo autor.
Conforme já mencionamos, o papel do outro, ou seja, para quem se constrói o enunciado, é de fundamental importância, uma vez que esse outro não é considerado um ouvinte passivo, mas um participante ativo da comunicação discursiva. O autor/falante sempre está a espera de uma compreensão ativa do seu interlocutor como resposta ao seu discurso. “É como se todo o enunciado se construísse ao encontro dessa resposta” (BAKHTIN, 2003, p. 301).
É também, exatamente, no encontro com essa resposta quando se dá a autoria, pois é para “esses outros, para os quais o meu pensamento pela primeira vez se torna um pensamento real (e deste modo também para mim mesmo)” (BAKHTIN, 2003, p. 301, grifo nosso), que o enunciado é proferido. Ao antecipar a resposta do outro, o autor/falante imprime autoria ao seu enunciado. Essa resposta antecipada exerce uma influência decisiva sobre o enunciado. O autor/falante é capaz de fornecer respostas prontas às objeções que prevê, apelando para toda especie de subterfúgios. Tais subterfúgios estão relacionados ao que compreendemos ser os aspectos prosódicos investidos no enunciado pelo autor/falante.
De acordo com Bakhtin, “a consideração do destinatário e a antecipação da sua atitude responsiva são frequentemente amplas, e inserem uma original dramaticidade interior ao enunciado” (BAKHTIN, 2003, p. 302, grifo nosso).
Assim, todas as considerações levantadas pelo autor/falante, ao escolher por uma determinada maneira de dirigir a voz ao seu interlocutor, irão determinar a ativa compreensão responsiva do seu enunciado pelo ouvinte, determinando também a escolha do gênero do enunciado, a escolha dos procedimentos composicionais e, por último, a escolha dos meios linguísticos, isto é, do estilo impresso aos aspectos suprassegmentais da fala, ou seja, aos aspectos prosódicos do enunciado.
            Desta forma, podemos dizer que todo enunciado possui autor e, portanto, autoria na medida que possui um destinatário vislumbrado. O direcionamento do enunciando, o seu endereçamento a alguém, o torna único e irrepetível, pois revela, de maneira excepcionalmente clara, a dependência do estilo em face a uma determinada sensação de compreensão do destinatário por parte do autor/falante.
            Para Bakhtin, a estilística tradicional mostra-se deficitária e limitada tendo em vista que,
[…] procura compreender e definir o estilo apenas do ponto de vista do conteúdo do objeto, do sentido do discurso e da relação expressiva do falante com esse conteúdo. Sem levar em conta a relação do falante com o outro e seus enunciados (presentes e antecipáveis) (BAKHTIN, 2003, p. 304, grifo do autor).
            Entretanto, os chamados estilos neutros “pressupõem uma especie de triunfo do destinatário sobre o falante, uma unidade dos seus pontos de vista, mas essa identidade e unidade custam quase a plena recusa à expressão” (BAKHTIN, 2003, p. 304), pois, o objetivo de exposição desses estilos neutros estão concentrados no seu objeto do discurso. Embora tais estilos envolvam, apesar de tudo, uma determinada concepção do seu destinatário, essa concepção é levada em conta de modo vago, indeterminado e abstrato do seu aspecto expressivo. Da mesma forma, a expressão do falante é vista como mínima e sem relevância.
            Essa expressividade descrita por Bakhtin (2003) como sendo neutra e centrada no objeto do discurso está em perfeito acordo com o que apresenta Brazil (1985) sobre “orientação oblíqua” que se baseia unicamente em aspectos da língua e é caracterizada por tons neutros. Em um discurso de orientação oblíqua o autor/falante não faz qualquer projeção quanto ao contexto em que tal discurso se insere. Da mesma forma, a escolha pela utilização de um tom neutro caracteriza o discurso como sendo de orientação oblíqua. A decisão do autor/falante baseia-se apenas em sua apreensão da organização sintática linguística sobre um determinado item, não assumindo uma identificação com o contexto de interação ou com o estado em que se encontra o ouvinte, bem como o que possa resultar dessa comunicação (BRAZIL, 1985, p. 205).
            A partir de tais observações, podemos assumir que os estilos neutros resultam em uma orientação oblíqua do discurso, em que o falante fica absolvido de qualquer responsabilidade sobre aquilo que é dito, sendo apenas um meio de transição e articulação entre o que precisa ser dito, informado, com o que é dito.
            Cabe ainda observar que, paralelamente a essa diversidade de concepção do destinatário, a qual determina o estilo dos enunciados, ainda existem formas convencionais ou semi convencionais de apelo aos ouvintes, assim como existem imagens convencionais ou semi convencionais de autores.
A imensa maioria dos gêneros literários é constituída de gêneros secundários, complexos, formados por diferentes gêneros primários transformados (réplica do diálogo, relatos cotidianos, cartas, diários, protocolos, etc.). Tais gêneros secundários da complexa comunicação cultural, em regra, representam formas diversas de comunicação discursiva primária. Daí nascem todas essas personagens literárias convencionais de autores, narradores e destinatários. Entretanto, a obra mais completa e pluricomposicional do gênero secundário no seu todo (enquanto todo) é o enunciado único e real, que tem autor real e destinatários realmente percebidos e representados por esse autor. (BAKHTIN, 2003, p. 305, grifo do autor e grifo nosso).  
Portanto, o endereçamento, o direcionamento do enunciado torna-se uma peculiaridade constitutiva desse enunciado, sem o qual não poderia haver enunciado. As formas de direcionamento do enunciado determinam os diferentes gêneros do discurso. Ainda assim, os diferentes gêneros do discurso necessitam das unidades significativas da língua, ou seja, as palavras e as orações, que, por sua vez, se incorporam ao enunciado envolvido em um determinado contexto para que realmente esses gêneros do discurso possam vir a significar algo.
Assim, a análise estilística, que tem por objetivo contemplar todos os aspectos do estilo, só é possível por meio da identificação da expressão do direcionamento desse enunciado. Tal direcionamento pode ser descrito e caracterizado pela identificação dos aspectos prosódicos que fazem parte da cadeia da comunicação discursiva real.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 5. ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1990.
BRAZIL, David. The communicative value of intonation in english. Birmingham: English language research, 1985.
BRAZIL, David; COULTHARD, Malcolm; JOHNS, Catherine. Discurse intonation and language teaching. London: Longman, 1981.


[1] Juliana Pereira Souto Barreto é aluna do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Ciências da Linguagem da Unicap – Universidade Católica de Pernambuco e professora adjunta do Curso de Letras da UnP – Universidade Potiguar. Correio eletrônico: jpsbarreto@hotmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário