Maria Aparecida Vilela Mendonça Pinto Coelho[1]
Thelma Cardinal Duarte Campaña[2]
(...) Não sou o herói da minha vida. (...). Meu ser-existência carece de valor estético, de significado de enredo, assim como minha existência física carece de significação plástico-pictural (BAKHTIM 2006, p. 102).
O que torna o trabalho de Bakhtin apaixonante e dotado de originalidade é a dimensão estética que o permeia, seu pensamento que se articula em torno da relação da pessoa com o seu outro, através do qual ela encontra um sentido para sua vida, nas relações entre o autor e o personagem. Vai além do aspecto puramente lingüístico, em direção a uma metalingüística, para estudar o enunciado. O enunciado pertence a um universo de relações dialógicas inteiramente diferentes das relações meramente lingüísticas. Enquanto a palavra e a sentença são uma unidade da linguagem, o enunciado é uma unidade da comunicação discursiva (FREITAS, 2003, p. 135).
Nesse sentido, toda enunciação tem dois aspectos: o lingüístico e o contextual, sendo que este se relaciona com a realidade e se produz num contexto social. Desta forma, todo enunciado é um diálogo, uma relação entre pessoas e se caracteriza por seu conteúdo e por seu sentido. Exige uma compreensão complexa, na qual o ouvinte decodifica e relaciona o que está sendo dito com o que ele presume. Um enunciado possui duas partes: uma percebida ou realizada em palavras e a outra presumida. A parte presumida se refere aos julgamentos de valor e é, portanto, social.
O enunciado sempre cria algo, algo novo e irreproduzível, algo que está relacionado com um valor (a verdade, o bem, a beleza, etc). O dado se reconstrói no criado e o objeto vai se edificando durante o processo criador. O autor também se cria nessa relação, bem como sua visão de mundo e seus meios de expressão e, nesse sentido, a compreensão é sempre dialógica. Ela é o ponto de partida para a significação, que é uma característica dos signos.
O conceito de exotopia pode ser considerado como um conceito-chave do pensamento de Bakhtin e se refere à visão da outra pessoa (o autor) que vê o personagem do exterior e confere sentido à sua vida. O autor não tem uma verdade acabada sobre seu personagem e está em permanente movimento porque ele procura a si próprio na palavra do outro, entra em diálogo e se deixa alterar pela palavra do personagem. É no contato com as palavras dos outros que sua palavra faz sentido.
Na perspectiva de Bakhtin, a relação com o outro pode ser considerada como o eixo da produção do saber. A enunciação científica se funda sobre uma relação de alteridade própria do diálogo e sem o outro para objetar não é possível enunciar.
Nesse sentido, a criação estética é um exemplo desse tipo de relação humana na qual uma das pessoas completa a outra e a dota de sentido. A assimetria entre o autor e o herói, ou seja, a superioridade do autor sobre o personagem era considerada por Bakhtin indispensável à criação artística, até que ele se deixou influenciar pelas relações estabelecidas pelos personagens nas obras de Dostoiewsky, onde o autor não tem vantagem sobre o herói. Dostoiewski soube captar as lutas de opiniões e de ideologias das diversas épocas e transformá-las em diálogos inacabados sobre essas grandes questões, na escala da grande temporalidade. De acordo com Todorov (2000),
O “super-homem” existe – mas não no sentido nietzschiano de ente superior; sou o super-homem do outro, como ele o é de mim: minha posição exterior (minha “exotopia”) me dá o privilégio de vê-lo como um todo. Ao mesmo tempo, não posso agir como se os outros não existissem: saber que o outro pode ver-me determina radicalmente a minha condição (p. 16).
Dois sistemas de leis regem a obra de arte: as leis do herói e as do autor – as do conteúdo e as da forma. O herói não pode ser criado apenas a partir de elementos estéticos, o autor não pode “fazer” o herói, visto que desta forma ele teria sentido apenas estético. A obra deve desembocar nos valores dos acontecimentos do mundo e o autor deve sentir a outra consciência. Este pensar bakhtiniano nos leva a respeitar o outro e a valorizar seus saberes e o conhecimento produzido por eles.
Um dos objetivos de nossa pesquisa de doutorado é compreender como o movimento do grupo de professores gerou a sistematização dos saberes profissionais dos participantes. No trabalho de campo, além da professora que é co-autora deste texto, participaram também como protagonistas mais quatro professoras, em um trabalho mediado pelas práticas colaborativas.
Como apenas o outro pode ser o centro de valores da visão artística, o herói de uma obra, visto que o acabamento – no espaço, no tempo e no sentido, não fazem parte de uma relação de valores da pessoa com ela mesma, ou seja, do autor da obra, os saberes profissionais dos professores não podem ser atribuídos a uma ou outra pessoa individualmente. Cada uma, que é portadora da visão artística e do ato criador, tem a tarefa de encontrar o meio de aproximar-se pelo lado fora e compreender os aspectos que escapam às outras. O ato estético, dessa forma, apresenta um novo plano de valores do mundo; e o autor, que no nosso caso é cada um dos membros do grupo, deve situar-se na fronteira do conhecimento que está sendo produzido, não se incluindo nele para não comprometer a sua obra.
De acordo com Bakhtin, para mim sou esteticamente irreal. Quando ele analisa as relações do autor com o herói na atividade estética, ele mesmo muitas vezes transpõe essas relações para a nossa vida e outras vezes parece nos permitir que estabeleçamos nós mesmos essas relações. O acontecimento estético necessita de dois participantes e pressupõe duas consciências que não coincidem. Na vida, o que nos interessa são os atos isolados dos homens que convivem conosco e, na obra de arte, nos interessa o todo, que é também significante, e as manifestações isoladas são componentes desse todo. Esse todo, responsável pelo acabamento do herói, é um dom concedido a ele pela consciência criadora do autor. Quando Bakhtin (2000) se refere ao acabamento do herói, ele usa o conceito de acabamento, e compreender o que quer dizer quando faz referência a ele, é importante para compreendermos as relações estabelecidas.
Se eu mesmo sou um ser acabado e se o acontecimento é algo acabado, não posso nem viver nem agir: para viver, devo estar inacabado, aberto para mim mesmo – pelo menos no que constitui o essencial da minha vida – devo ser para mim mesmo um valor ainda por-vir, devo não coincidir com a minha própria atualidade (p. 33).
Nesse sentido, o acabamento provoca a passividade do herói, enquanto que o autor, colocado fora do seu campo existencial, lhe proporciona um afastamento que deixa o campo livre para a sua vida, é um espectador que não toma parte no acontecimento. É a exotopia do autor em relação ao herói. A vida do herói é vivida pelo autor numa categoria de valores diferente daquela que ele conhece na sua vida e na vida dos outros.
Bakhtin parte do pressuposto de que não somos aptos para perceber o todo da nossa pessoa. Não levamos em conta o fundo ao qual damos as costas, e nosso corpo como um todo não pode ser visto de maneira completa por nós mesmos. Algumas partes do nosso corpo são inacessíveis ao nosso olhar e estamos sempre esperando pelos reflexos da nossa vida na consciência dos outros. Depois de vermos a nós mesmos pelos olhos de outro, sempre regressamos a nós mesmos.
O conceito de acabamento se refere à possibilidade física de dar uma forma a alguma coisa, de fora. Bakhtin (2000) está se referindo ao acabamento estético e, nesse sentido, o sujeito da vida e o sujeito da atividade estética, que lhe dá a sua forma, não podem coincidir.
Estou por inteiro dentro da minha vida e, se eu de alguma maneira pudesse ver o exterior da minha vida, esse exterior se integraria imediatamente á minha vivência interna, a enriqueceria de um modo imanente, ou seja, deixaria de ser exterioridade que, de fora, proporciona acabamento á minha vida, deixaria de ser a fronteira eventual de um finito estético que me proporcionaria, de fora, meu próprio acabamento (p. 101).
Tomo consciência de mim através dos outros, visto que tudo o que me diz respeito, até mesmo meu nome, vem do mundo exterior, da boca dos outros, e penetra em minha consciência, com a entonação e o tom emotivo dos valores deles. Recebo dos outros a palavra e a forma que servirão para formar a representação que terei de mim mesmo. Assim, a consciência do homem desperta envolta na consciência do outro. Nesse sentido, há acontecimentos que não podem desenvolver-se no plano de uma única consciência, visto que pressupõem uma relação de alteridade.
De acordo com Bakhtin, o diálogo é a forma clássica da comunicação verbal. A relação que se estabelece entre as réplicas do diálogo, como pergunta e resposta, não é mera trocas de palavras, como costumamos dizer, porque visa a resposta do outro, uma compreensão responsiva ativa e busca convencer o leitor ou interlocutor, suscitar sua apreciação crítica, influir sobre ele.
Em nosso trabalho de Mestrado tivemos a grata surpresa de vivenciar a perspectiva bakhtiniana em um grupo de professores que se reunia mensalmente com colegas da área de Matemática para cumprir exigências da Secretaria Municipal de Educação, em um programa do tipo de Formação Continuada, semelhante ao HTPC (horas de trabalho pedagógico comunitário) oferecido pela Secretaria Estadual da Educação. Podemos falar em surpresa no sentido em que, professores de Matemática, quando se reúnem, levam consigo as relações que se estabelecem no interior da disciplina que ensinam, ou seja, as lógicas, apoiadas no raciocínio dedutivo.
Nosso trabalho de campo, realizado nesse espaço, nos levou a analisar a produção de sentidos dos professores sobre a Resolução de Problemas como prática pedagógica. O pensamento bakhtiniano nos levou a um novo título para o trabalho, que pudesse sintetizar o movimento de produção de sentidos nas relações dialógicas estabelecidas no grupo: A Resolução de Problemas: da dimensão técnica a uma dimensão problematizadora (COELHO, 2005). O trabalho de Doutorado pode ser considerado como uma continuação do movimento já iniciado, desta vez contando com um grupo do tipo colaborativo (GCOEM – Grupo Colaborativo em Educação Matemática). Este é formado por professores que estão interessados em fazer uma reflexão sobre suas práticas pedagógicas e encontrar parceiros para trabalhos acadêmicos. Neste momento, o papel do outro já está fortemente estabelecido e contamos com as relações dialógicas para a produção de sentidos sobre nossas práticas pedagógicas e trabalhos acadêmicos.
O problema consiste, então, em tirar partido da exotopia temporal e cultural. Dessa forma eu enriqueço o outro e lhe asseguro um acabamento positivo, fazendo que ele se torne o herói, e fique esteticamente significante. Eu, como autor, através da minha posição firme fora dele, exerço minha autoridade no nível do significado de seu sentido. Bakhtin (2000) destaca um ponto interessante na relação estética autor/herói: se o autor percebe a mais profunda contradição na existência do herói não participa dela, mas a engloba numa visão que a converte numa modalidade da existência, estará devolvendo a essa contradição a ingenuidade e a espontaneidade, está criando para ele formas que ele mesmo é impotente para encontrar, a partir da posição que ele ocupa. Da mesma forma, se o outro, voltado à obtenção de sentido, serve de norma para ele e se associa ao seu enfoque do sentido, torna-se difícil contribuir para seu acabamento.
Na concepção de Linguagem de Bakhtin, se torna evidente uma das categorias básicas de seu pensamento: o dialogismo. A idéia de dialogismo ou polifonia, construída no campo da filosofia da linguagem, nos leva a uma questão: Como compreender e analisar as múltiplas vozes que se fazem ouvir em um grupo de professores que têm como objetivo debater suas práticas pedagógicas com o objetivo de buscar soluções para os problemas complexos de sala de aula? Nossa hipótese é que a produção de conhecimentos que se realiza nessas interações pode levantar questões pertinentes no campo pedagógico e até mesmo nos apontar alguns caminhos a serem perseguidos para boas soluções nesse campo. As vozes dos professores que compõem o diálogo e que, por oposição ou por acordo, levantam questões e defendem seus pontos de vista, desempenham um papel importante na produção de conhecimentos. Para instigar nossa reflexão sobre o tema torna-se importante partirmos da questão: O que torna um texto dialógico? O objeto polifônico que se apresenta para análise é instável e depende do sistema de alteridades que se estabelece.
De acordo com Bakhtin, podemos contar com a coexistência de duas formas de relação de alteridade; a lógica e a dialógica. Na concepção dialógica do discurso, A não é idêntico a A, visto que o dialógico escapa à necessidade lógica por não se constituir de uma relação entre afirmações e negações. Para se tornarem dialógicas é necessário que essas afirmações se transformem em enunciado, em um contexto de enunciação.
A relação dialógica também não é dialética, por não se reduzirem à relação do tipo tese/ antítese/ síntese. Não tem explicação nem gênese, não sendo previsível e por esse motivo podendo apenas ser analisado a posteriori. No dialogismo não podemos contar com a harmonização das diferenças, pois nele coexistem forças sociais e de natureza ideológica, o diálogo dos tempos.
Nos textos de Bakhtin a palavra ideológico é utilizada para designar simplesmente um ponto de vista, uma visão de mundo de natureza social, sem contar com um estatuto conceitual e não tendo nada do conceito marxista, por não se definir necessariamente por uma relação de classes.
Bakhtin afirma que é nossa relação que determina o objeto e sua estrutura e não o contrário. Essa constatação nos leva a valorizar as relações dialógicas e a pensar nelas como fonte inesgotável de conhecimento. Nas relações de sentido entre enunciados distintos, o sentido se distribui entre as diversas vozes, estabelecendo uma nova relação. Esse tipo de relação pode ser definido como dialógica.
A relação dialógica tem de específico o fato de não depender de um sistema relacional de ordem lógica (ainda que dialética) ou lingüística (sintático-composicional).(...)A relação dialógica pressupõe uma língua, ma não existe no sistema da língua (...) É uma relação (de sentido) que se estabelece entre enunciados na comunicação verbal (BAKHTIN, 2000, p. 345).
Isto é possível, de acordo com o autor, mediante uma abordagem não lingüística, ou seja, de uma transformação na percepção do mundo.
Embora Bakhtin não tenha se referido em nenhum momento às relações de sala de aula, não conseguimos deixar de transportar essas idéias para a relação professor/aluno. O professor seria o outro de cada aluno, e para todos esses outros, deveria proporcionar o acabamento do qual eles necessitam, só que na atividade educativa, que poderia ser considerada como um tipo de atividade estética. Neste caso, o professor estaria aproveitando o privilégio da posição que ocupa fora do aluno para ajudá-lo quando, a partir do lugar que ele ocupa, é impotente. Essa ajuda supõe a exotopia do professor em relação a ele, e não uma identificação ou coincidência, através de sentimentos como a simpatia ou a empatia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BAKHTI, M. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
COELHO, M.A.V.M.P. A Resolução de Problemas: da dimensão técnica a uma dimensão problematizadora. Dissertação de Mestrado. Campinas: FE/UNICAMP, 2005.
FREITAS, M. T. A. Vygotsky e Bakhtin. Psicologia e Educação: um intertexto. São Paulo: Ática, 2003.
TODOROV, T. Prefácio à 3ª Edição. In: BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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